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POR EM 09/12/2008 ÀS 11:59 PM

Espírito de manada

publicado em

Várias coisas intrigam nessa crise. A primeira delas é que vem sendo anunciada há meses antes de seu acontecimento. Já no ano passado se comentava o problema com os financiamentos ditos “subprime” (financiamentos imobiliários com maior risco de calote, para encurtar e simplificar). Ainda assim, a bolsa subiu a ritmos galopantes até na véspera da crise. Por quê?

Assistindo a uma palestra de um corretor tive uma resposta que me soou razoável. O mercado, essa entidade amorfa que parece que tem vida própria, tem, mesmo, vida própria. É possível analisar os acontecimentos retrospectivamente, com bastante agudeza, apenas observando-se gráficos. Esqueça os fundamentos de uma empresa, esqueça as baboseiras que jornalistas falam (a partir da análise de “especialistas”). Esqueça as relações causais estabelecidas, que soam, à primeira ouvida, razoáveis, mas que não passam de chutes saídos de bocas que não deveriam estar chutando, mas que não resistem a um microfone.

A crise estourou em outubro (e não em julho, ou março, etc) porque até então o gráfico mandava subir. E a manada subia. Não era hora ainda de “realizar” (jargão para “vender” ou “auferir lucros”). Então, num clic, passou a hora de realizar. E a manada desceu a ladeira com vontade. Claro, passando uns por cima dos outros, afinal, manada é manada.

De que adianta saber disso agora? Teoricamente, a análise retrospectiva deveria ajudar a prospectiva. Em outras palavras, se o mercado funciona em ritmo de manada, é crucial saber quando sair da frente, pra não ser atropelado, e quando entrar, pra participar do butim. E aí que está o problema. Os gráficos são uma beleza para se enxergar o passado, mas para prever o futuro eles podem ser traiçoeiros. Afinal, manadas não são muito confiáveis.

Macacos babuínos, quando têm de atravessar um rio ficam um tempo indecisos quanto ao que fazer, até que um iniciador... inicie. Mas é só depois que um “decididor” chancele a atitude do iniciador que o resto vai. Se os mais fracos e/ou mais jovens ficam pra trás, azar o deles. Nem mãe volta pra buscar filho. Ele que se vire. Se essa é uma boa analogia, quero estar sempre perto do decididor e pronto pra nadar.

Uma das características que as análises de gráficos levam em consideração é o velho princípio que diz que a história se repete. Na atual crise isso é particularmente verdadeiro quanto aos fabricantes de carros. Quando vi que a Chrysler está, de novo, pedindo dinheiro ao governo americano para se sustentar, fui imediatamente reler a auto-biografia do Lee Iacocca. Está tudo lá. As mesmas alegações, a mesma choradeira. A diferença é que o livro (publicado em 1984) é a história de um homem que teve sucesso na empreitada de reerguer a Chrysler (pedindo dinheiro pro governo). E agora?

Outra coisa que intriga (angustia seria mais aplicável) é saber quando vai acabar. Se a crise tivesse lógica, talvez (talvez!) se pudesse fazer previsões razoavelmente acertadas. Entretanto, a entidade mercado é caprichosa, e pode surpreender, desembestando sua manada histericamente pra cima ou mais pra baixo ainda. Vai saber. Daqui a uns dez anos a gente olha no gráfico.

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