Então me excomunga
Há tempos o sexo é assunto tabu para o ser humano. Exceto quando moramos nas cavernas, época em que não havia diálogo, tolerância, dores de cabeça, e as preferências sexuais eram decididas no muque. Enxertavam as mulheres no cio os machos mais fortes e ardilosos. Carecia enganar a concorrência, ferir e matar (se preciso fosse) para perpetuar a espécie.
Não havia lei, moral, educação autoritária e religiões pedantes a ditarem as regras, criarem limites e assombrarem os viventes. Ainda que ninguém soubesse ler e escrever, a humanidade crescia e se multiplicava, seguindo à risca, no mais puro instinto animalesco, as recomendações que um dia alguém colocaria nas Escrituras. Nem precisava pedir, Senhor.
Há dias um ex-padre goiano foi notícia no Brasil inteiro por ter sido “demitido” pela Igreja. Eu nem sabia que padres eram passíveis de demissão. Não importa. O Vaticano cortou o barato do religioso porque ele flertou, namorou, casou e teve filhos com uma ovelha do rebanho.
A Igreja, de forma atrasada, mandou avisar à comunidade local (quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça!) que todos os eventos e celebrações feitas pelo mesmo durante aqueles anos estariam, a partir daquela data, extintos, anulados.
Crianças que foram batizadas pelo padre deveriam fazê-lo novamente. Casais que tinham se casado sob a sua benção que se considerassem descasados perante Deus e providenciassem as providências para acertarem os ponteiros com a Providência Celestial.
Eventuais enfermos ungidos pelo padre em seus leitos terminais deveriam requisitar a presença de outro representante de Deus, caso ainda não tivessem ainda desencarnado. Se já houvesse partido desta para melhor (ou seja, para o nada), livres destes e de outros debates tão infrutíferos, que os familiares se ocupassem dos trâmites religiosos legais para que os seus entes queridos repousassem tranquilos na mansão dos mortos.
O celibato na igreja católica sempre foi um tema polêmico, mesmo na Idade Média, época em que os religiosos mandavam ver em festas de arromba, orgias e outras recreações libertinas. Não vou me aprofundar no tema, até porque os homens do Vaticano não vão considerar meu ponto de vista.
Eles nem ao menos abençoam o uso da camisinha, artefato de látex importantíssimo na prevenção de doenças sexualmente transmitidas e das gravidezes não planejadas. O Papa Bento XVI está fazendo um “tour” pela África, o continente mais pobre e miserável do planeta, onde a AIDS campeia como se fora gripe, com enorme prevalência. Parece uma provocação do santo homem.
Até entre os profissionais, o sexo é assunto desconcertante. Comenta-se que, entre os ginecologistas, são corriqueiras a preguiça e o desinteresse em conversar com as pacientes a respeito das suas queixas sexuais. Muitos médicos, durante os questionamentos clínicos (às vezes, cínicos), pulam, evitam perguntas a respeito de sexualidade. Velhacos, eles sabem que dessa moita saem coelhos e outros bichos. Mais prudente, então, aguardar pelas manifestações espontâneas das pacientes. Inseguras, muitas mulheres preferem se omitir.
As revelações incomodam. São situações difíceis de serem resolvidas porque envolvem preceitos íntimos de difícil acesso aos profissionais de saúde. Dizem que alguns doutores fingem-se de surdos e não dão seqüência no assunto. Não tem pílula azul que dê jeito nos grilos e recalques dos médicos e da clientela. O alívio só advém com a palavra, o estudo e o entendimento. Terreno da psicoterapia.
Sexo, portanto, é papo corriqueiro nos mais diversos ambientes, desde igrejas e cemitérios, até prostíbulos e mesas de boteco. Na semana passada, um amigo, visivelmente animado depois de entornar a quinta tulipa de chope, contou o quanto era supimpa uma “clínica de massagens” que descobrira nos últimos dias, valendo-se de uma viagem da esposa.
As profissionais do reduto, moçoilas entendidas do baralhado, ofereciam um cardápio variado de “massagens”. Machadinho ficou especialmente interessado numa tal massagem sensual, modalidade em que a contratada esfregava seu corpo nu no corpo do cliente, de tudo que era jeito, antes azeitando, untando o sujeito com ungüentos, óleos aromáticos e outros apetrechos culinários, sem, contudo, consumar-se a divertida conjunção carnal. Animado, Machadinho, que goza (perdoem-me pelo trocadilho) de uma saúde de ferro, descrevia a “clínica” com empolgação de adolescente.
Nós. O sexo. Um padre lascivo. Prostitutas disfarçadas de massagistas. Quanta fantasia... Para se obter prazer é fundamental que ela exista. E fantasia não tem limites. Nem as mentiras que contamos os têm. Vale tudo para perpetuar a espécie, ainda que estas peripécias frequentemente redundem nalgum grau de sofrimento. Também pudera. Não é público e notório que amor e ódio caminham de mãos dadas? Pois então...















