Então é assim o fim de um grande amor?
Quando o Alcebíades levantou a camisa, mostrando os arranhões na barriga, exibindo-os como se fosse um salvo conduto, um troféu, a cabeça de um alce ou rinoceronte, eu fiquei mais que desentendido.
“— Mas, Alcebíades, rapaz, você é um juiz de Direito da maior envergadura... Como é que pode uma coisa destas?!”, arrisquei.
Pois foi assim mesmo que aconteceu. O Alcebíades, amigo de infância, ou melhor, um colega nos longínquos tempos de escola (“diz-me com quem tu andas e direi quem tu és...”, ameaça o texto bíblico), sempre fora uma pessoa esquentada, um encrenqueiro, um adolescente assíduo nas diretorias das várias escolas particulares pelas quais peregrinou durante a sua carreira estudantil. Apesar da longa jornada, do esforço financeiro dos pais (leia-se “dar tudo que o dinheiro possa comprar”), do empenho de professores, e dos hematomas pelo corpo, ele nunca aprendeu a perder.
“— Não aguentei: catei ela pelos cabelos, abri a porta e a atirei pra fora de casa, no hall do apartamento!”. Fiquei só imaginando a foto do Alcebíades nos jornais, tentando se livrar da acusação de violência doméstica, encarando os rigores da Lei Maria da Penha, concebida para proteger mulheres de valentões como o meu amigo, ou melhor, ex-colega, o hoje juiz Alcebíades, freqüentador assíduo da maçonaria e das colunas sociais.
Uma coisa puxa outra. Então me lembrei de mais uma estória sobre casamentos fracassados. É isso, minha gente: a tolerância, atributo muito mais importante do que o amor (ao contrário do que os padres — que nunca se casam — garantem), anda escassa. Foi assim que aconteceu:
“— Ah, que beleza!”, ele comentou (quase sempre falava sozinho; a mulher, largada na outra metade da cama, quase nada sentindo senão saudades do Doutor Andraus, o psicoterapeuta com sotaque alemão e que cobrava consultas a preços módicos, viáveis para uma simples e perturbada dona de casa). Estava consumada a trepadinha da quarta-feira à noite, após a transmissão da última rodada do campeonato brasileiro de futebol.
Ele fazia o tipo “machão”, mas não assumia a alcunha. Ficava muito irritado quando a esposa o classificava como egoísta, cabeça-dura, o senhor da razão. Sentia-se injustiçado, um incompreendido, total desmerecedor de tais adjetivos abjetos.
Era um homem de opinião. Só isso. Gente de temperamento forte, sujeito nascido em Catalanus, cidade interiorana onde os homens eram mais homens (até parece nome de filme de western), uma homarada famosa em todo território nacional por não levar desaforo pra casa de jeito nenhum.
No fundo, para o bem da verdade (e a verdade deve quase sempre ser dita, exceto nas Comissões Parlamentares de Inquérito), a esposa há muito não ouvia o metafórico “pipocar dos fogos de artifício”, não sentia “o mundo girar”, e não experimentava “a fantástica jornada pelo mundo dos prazeres sexuais”. Além de rápido no peleja da ereção e da ejaculação, faltava ao companheiro (que estava mais para companheiro de quarto do que para companheiro, na acepção da palavra) tudo aquilo que ela encontrava nos relatos das comadres, das amigas, das vizinhas, e das revistas direcionadas ao público feminino.
Como o marido rolara para o lado, feito uma tora de jatobá, sem ao menos enxaguar o pênis agora muxibento, ela se levantou da cama, foi lavar as partes, cumprir um ritual. Depois do banho demorado, quando quase arrancava o couro da xoxota de tanto esfregar o sabonete e a bucha, como se quisesse lavar algo mais do que muco e esperma, foi para a cozinha, atacou a geladeira, devorou comida salgada e doce com apetite de uma lagarta. “— Ah, queria tanto voar daqui...”, pensava que nem borboleta.
Sentada à mesa, desconsolada, antevia o marido estatelado sobre a cama, imerso em sono profundo, roncando como um senador velho da república numa sessão desimportante no plenário, e ficava matutando por que é que há anos já não tinha mais orgasmos.
Sentia frustração e culpa, uma combinação mais que sofrível. Por que não contava logo tudo a ele? Que não sentia mais vontade de beijar a sua boca, muito menos, entregar-se às já desgastadas e inconvenientes carícias íntimas, um repertório repetido e sem graça, com um final mais do que manjado e infeliz. Gemer sem sentir dor não lhe parecia honesto, ao contrário do que a cantora Amelinha cantava nos anos 80. Então, sofreu calada, uma das qualidades mais repugnantes de uma mulher, principalmente das incultas.
Na noite seguinte, uma novidade:
“ — Quero me separar de ti. Arrumei outra mulher. Peço a ti, de coração, que me perdoes. Não dá mais pra segurar a onda. Aconteceu. A gente não escolhe. Quando o amor cruza a vida da gente é tiro-e-queda, é pá-e-bufe, tu bem o sabes. Nossos filhos já são crescidos, hão de caminhar sozinhos e compreender as nossas razões (no caso, as razões dele). Peço que não chores. Lamento profundamente. Casei-me contigo por amor. Sim. Eu te amei. Juro. Mas agora, tudo terminou. Adeus. Adeus. Por favor, não chores...”.
Mais uma vez disfarçando o seu real sentimento, artimanha feminina, ela se trancou no banheiro e chorou sim, de soluçar, feito uma criança. A alegria foi tanta que ela adormeceu ali mesmo no chão, deitada sobre o piso gelado, a cabeça no tapete e os pensamentos nas nuvens. Sentia um alívio tão descomunal, uma satisfação inovadora somente comparável ao dia em que se casou com aquele sujeito, há dezessete anos.
“— Então é assim o fim de um grande amor?!”. E viveram felizes por enquanto.
E o Alcebíades?! Ora, o Alcebíades tem muitos amigos influentes na imprensa e no judiciário, ou seja, tem o corpo praticamente fechado.





