Eis que senão quando, quase...
Foi então que quase fiquei rico. O sujeito me apareceu já com um monte de informações minhas. Ele sabia que eu detinha o maior número de opções para vender propriedades na região. O pretenso comprador de fazendas portava um perfil acima de qualquer suspeita: grande feito um cavalo empinado, bem falante, cabeleira farta e bigode idem, tudo branco, botas incrementadas, cinturão largo com fivela de frigideira, roupas de grife country, camionetona Ran 4x4, cabine dupla, azul-cobalto e cromos faiscantes.
Eu também tinha já notícias dele. Ele me fizera chegar, hoje sei, mas na época nem suspeitava, ele me fizera chegar um monte de informações sobre ele, sem que eu soubesse que elas partiam dele. Quando foi me relatando suas possibilidades e pretensões, fiquei deveras eufórico. Primeiro, porque as informações batiam com as que eu ouvira falar. Segundo, porque vi ali na minha frente a oportunidade real de ganhar dinheiro numa proporção que jamais imaginara. Agora, sim. Nem que eu quisesse exercer as prevenções da dúvida minhas ambições não deixariam mais.
Aí ele puxou dum laptop e me mostrou fotografias de sua fazenda zebueira recém-adquirida em Uberlândia. Máquinas revirando terra, peões no curral em posições acima de qualquer suspeitas inseminando vacas, uma estrutura que dava gosto. Ele nos retratos, flagrado em gestos expressivos de quem ditava ordens.
Ao final da exibição das fotos ele abre outra tela, assim como que até meio distraído e me mostra uma cédula de crédito com sinais do tesouro americano. E me falou, menos exaltado do que falava normalmente, como quem confidencia, do jeito de quem tem café no bule: Sou filho de criação de um magnata americano. Meu pai me passou um bilhão de dólares pra eu comprar fazendas no Brasil. Já investi o mesmo tanto na Austrália. Do you speak English?
Eu abanei a cabeça que não, e fiquei olhando pra cédula na tela do laptop. Não digeri o valor, mas como ele dizia que o treco era de um bilhão de dólares, não pude duvidar, porque era zero às pampas à direita do número um. Tampouco duvidei da veracidade da cédula de crédito.
Como ele disse que estava chegando de São Paulo, e a placa do carro confirmava, que veio dirigindo e estava um pouco cansado, e também porque já era hora do almoço, levei-o para se hospedar no melhor hotel da cidade. Na portaria ele disse pro atendente que poderia fazer a ficha em meu nome, porque ele havia esquecido a carteira no carro. O atendente era meu chegado e dei pra ele uma confirmação de cabeça.
No dia seguinte a gente começaria a via sacra às fazendas. Eu tinha no mínimo umas vinte no jeito pra lhe mostrar. Mas aí ele amanheceu com crise de labirintite e não podia nem se mexer. Mas eu soube que, mesmo tonto, recebia garotas no quarto, dessas caras pra derriça. Nisso se passaram quatro dias. No quinto ele anoiteceu e não amanheceu. Mas a conta astronômica ficou lá no hotel, em nome do degas aqui.
Atinei de ligar pra fazenda de elite lá em Uberlândia e pedir informações:
— Ah, o Necão doido?... me falou alguém do outro lado da linha.
Foi então, como se diz, que eu caí em si.





