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POR EM 10/12/2008 ÀS 03:44 PM

Ecce Homo

publicado em

Ecce Homo é uma obra peculiar dentro da biografia de Nietzsche. Ele a escreveu pouco antes de perder a lucidez. Freud a estudou como um “caso clínico”. Em algumas passagens, Nietzsche. extrapola no auto-elogio: “Shakespeare e Goethe não saberiam respirar nessas alturas”. Alguns chegam mesmo a classificar o volume como “pós-filosófico”. E, no entanto, o livro nos deslumbra com várias passagens poéticas e altamente dignas de ser pensadas, como em todos os livros do filósofo alemão. Tal como este parágrafo em que ele discorre sobre a maneira de reconhecer a vida que vingou: “Um homem que vingou faz bem a nossos sentidos: ele é talhado em madeira dura, delicada e cheirosa ao mesmo tempo. Só encontra sabor no que é salutar; seu agrado, seu prazer cessa, onde a medida do salutar é ultrapassada. Inventa meios de cura para injúrias, utiliza acasos ruins em seu proveito; o que não o mata o fortalece. De tudo o que vê, ouve e vive forma instintivamente sua soma — ele é um princípio seletivo, muito deixa de lado. Está sempre em sua companhia, lide com homens, livros ou paisagens: honra na medida em que elege, concede, confia. Reage lentamente a toda sorte de estímulo, com aquela lentidão que uma larga previdência e um orgulho conquistado nele cultivaram — interroga o estímulo que se aproxima, está longe de ir ao seu encontro. Descrê de ‘infortúnio’ como de ‘culpa’: acerta contas consigo, com os outros, sabe esquecer — é forte o bastante para que tudo tenha de resultar no melhor para ele.”

A tradução é de Paulo César de Souza (Cia. das Letras). Não parecem as palavras de um homem louco. A não ser que a loucura seja uma forma extrema de sanidade.

Há também muitas curiosidades nesse livro: não deixa de ser cômico imaginar Nietzsche percorrendo Roma, em vão, à procura de um lugar “não-cristão” para hospedar-se; ou a afirmação, suprimida da edição após sua morte, de que “a verdadeira objeção” à idéia de eterno retorno eram sua irmã e sua mãe! A quem ele chama de “vermes venenosos”: “Crê-me aparentado a tal canaille seria uma blasfêmia à minha divindade”, diz. Quando se pensa no que a irmã fez depois com sua obra, chegando ao ponto de falsificar cartas atribuídas a ele, associando-o ao nazismo, deve se dar toda razão a Nietzsche por essas investidas contra a família.

Outro fato curioso é que Nietzsche tinha certeza que descendia de nobres poloneses, mas a pesquisa genealógica demonstrou a sua origem totalmente germânica. É mais fácil encontrar passagens elogiosas aos judeus em seus livros do que a favor do alemão médio da época — um tipo que Nietzsche desprezava profundamente, e em relação ao qual se considerava um “antípoda”.

Nietzsche promoveu um ataque feroz à “cultura” alemã e o que esta, segundo ele, havia produzido até então de pior: o idealismo “tornado um instinto” nos alemães. Kant não era filósofo de fato, nem sequer era “profundo”. “Os alemães acham-se inscritos na história do conhecimento apenas com nomes ambíguos, jamais produziram senão falsários ‘inconscientes’ ( — Fichte, Schelling, Schopenhauer, Hegel, Schleiermacher merecem o termo tanto quanto Leibniz e Kant; não passam todos de ‘fabricantes de véus’ [Schleiermacher] –).”(Ecce Homo).

Ninguém é perfeito. Nietzsche odiava a “cerveja alemã” e duvidava da máxima in vino veritas. Um copo de vinho servia, segundo ele, para lhe estragar todo o dia. Estranho para um “fervoroso seguidor” de Dionísio. A explicação, no entanto, não tem nada de “metafísica”, mas vem a ser meramente fisiológica. O filósofo d’A Gaia Ciência tinha o estômago fraco.

Há toda uma seção dedicada à culinária e, mais uma vez, serve para espinafrar a cozinha alemã, as carnes excessivamente cozidas. Nietzsche escreveu a favor e contra o vegetarianismo. Todas essas observações, demasiado humanas, tinham, contudo, um lugar na sua filosofia, cujo mandamento era olhar para o homem e não procurar por nada cuja elucidação não pudesse ser encontrada aqui mesmo na Terra.

Em Ecce Homo ele faz a autocrítica (e o auto-elogio) de todos os seus livros anteriores, passando-os em revista. “Eis o homem” é a frase com a qual Pilatos apresenta Cristo aos judeus. (“Crucifica-o, crucifica-o”, responderam, tendo-o visto, os príncipes e os ministros dos sacerdotes, de acordo com o episódio citado no Evangelho de São João). No posfácio a esse volume, da edição das obras de Nietzsche, pela Cia. das Letras, o tradutor afirma que, com essa obra, Nietzsche fez para si mesmo os louvores que gostaria de ter ouvido, durante toda a sua vida, e não escutou de ninguém. E, entretanto, mal começara ele a ser lido e admirado à época que terminou de escrever essa que é sua autobiografia, e já incita a todos na introdução, citando passagens do Zaratustra, que o abandonem e encontrem a si mesmos. E conclui ele dizendo: “Somente quando me tiverem todos renegado, retornarei a vós”.

Nisto consiste o “anti-cristianismo” de Nietzsche: “Nunca adules teu benfeitor” (a frase é de Buda, citado em A Gaia Ciência). Apesar de falar às vezes como um pregador, Nietzsche afasta a possibilidade de ser o fundador de uma religião. Escreve Ecce Homo antes que alguém tenha a má idéia de atribuir-lhe algo parecido. Ele também ensinou a “filosofar com o martelo”, usando o instrumento como um diapasão, capaz de constatar a existência de deuses-ídolos ocos. Ele nunca foi santo. “Costumo lavar as mãos após o contato com pessoas religiosas”, afirma. Ao cristianismo, “essa recusa de viver tornada religião”, opõe o amor-fati, amor ao destino, amor de si mesmo. Dionísio contra o crucificado. 

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