É só cinco real
Teodorico é sapateiro e trabalha com seu irmão, cujo nome desconheço, numa minúscula oficina que conserta, não apenas sapatos, mas bolsas, cintos, malas, maletas, frasqueiras, e outros itens do vestuário humano, único animal do planeta que se veste, mente e questiona a divindade. Ele só não conserta mesmo os dilemas existenciais, porque daí a vida perderia toda a graça.
A oficina dos irmãos é feia, desorganizada, mal iluminada, um verdadeiro mistério para mim. Magricelos, os dois trabalham, cada qual num canto da obscura sapataria, encurvados, concentrados nas suas tarefas, monossilábicos e econômicos nos gestos, como sempre.
Enquanto eu aguardava um derradeiro reparo no par de tênis, perguntei ao Teodorico se ele tinha assistido ao noticiário de ontem à noite. Não me dirigi ao seu anônimo irmão, pois ele nunca fala comigo, nem ao menos levanta a cabeça salpicada com cabelos grisalhos para colocar os olhos na freguesia.
Velhaco, ele me fez lembrar do carpinteiro Gepeto, criador e pai do Pinóquio, ambos personagens de Walt Disney, sorriu sem mostrar os dentes. Ele tinha visto, sim. Dentre tantas notícias ruins, das quais os telejornais se fartam, uma delas pareceu promissora e dizia respeito a um recente fenômeno vivido em terras norte-americanas. Atolados numa profunda crise financeira, os americanos experimentam mudanças substanciais em seus hábitos de vida. O reino da fantasia e do entretenimento parece ter se esgotado.
Teodorico ouviu com satisfação o apresentador contar que os sapateiros da América do Norte estavam se havendo muito bem naquele contexto economicamente crítico. Ao invés de simplesmente descartar os seus sapatos, coisa que os americanos sabem fazer muito bem, não somente com seus pisantes, mas com quase tudo aquilo que usam cotidianamente, como eletrodomésticos, computadores, pessoas e roupas, eles agora os levam para serem reformados.
Nossos irmãos abonados descobriram que seus sapatos, assim como os felinos, podem ter sete vidas, desde que devidamente zelados por um competente sapateiro. Desta forma, além de economizar muitos dólares, evita-se o simples descarte e acúmulo de lixo, um outro problema seriíssimo com o qual já estamos nos defrontando. É tanta sujeira que não tem mais tapete pra encobrir. E não adianta atirar as porcarias dentro de um rio. Funciona que nem remorso: chega uma hora que a coisa bóia e tudo vem à tona.
Ou seja, apesar do contexto inóspito da economia americana (e mundial), as sapatarias estão repletas de clientes interessadíssimos em cortar gastos. Na sua peculiar timidez, o meu sapateiro comentou que jamais ficou sem serviço, e que tem uma clientela “boa demais da conta graças a Deus”.
Teodorico, que é fraco em posses e estudo, como ele mesmo diz, jamais aplicou outra coisa na bolsa, senão cola e presilhas. Da Bolsa de Valores ele nada entende, e nem faz questão de aprender. Talvez, ele se sinta mais seguro lidando com as suas clientes, mulheres detalhistas, do que com um mercado financeiro complexo e irracional.
Por um instante, Teodorico se equivocou, ao chamar Barack Obama, o Presidente dos EUA, de Osama Bin Laden. Todos dentro da oficina riram com desprendimento, inclusive o seu enigmático irmão, que exibiu os dentes marcados de preto e amarelo por conta vício do tabaco. De Osama, não se sabe o paradeiro. Na verdade, nem ao menos se pode garantir que o facínora ainda respire nalgum recanto do planeta. Quanto ao presidente negro, o primeiro da história daquele país, milhões de pessoas depositam as suas fichas e esperanças. Para quem se apega ao Superman e outros salvadores da pátria, Barack Obama parece ser “o cara”.
Com o par de tênis tinindo nas mãos, perguntei quanto fora o serviço, já sabendo a resposta. “É só cinco real”. Trocar o zíper da bolsa. Colar a sola do chinelo. Costurar as bordas de um cinto. Qualquer serviço ou providência: “cinco real”. Paguei. Agradeci. Despedi-me só de Teodorico, já que o seu irmão sem nome escapulira para fumar outro cigarro. Saí dali convicto de que a vida devia mais ser feliz e simples, como parecia ser o caso do Teodorico, o melhor sapateiro destas bandas.














