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POR EM 17/11/2008 ÀS 04:41 PM

E se fosse pela última vez

publicado em

Às vezes, sexo é assunto engraçado. Não vou dizer que seja gozado, até para evitar duplo sentido, safadeza nas entrelinhas. Tenho o hábito de ler os jornais por inteiro, exceto os encartes promocionais que só propagam o consumismo e alimentam o lixo. É a chamada leitura dinâmica, em que os olhos e a mente pescam nas manchetes os assuntos que interessam. Nem sei por que cargas d’água vasculho até os classificados. Talvez o faça na ingênua esperança de ali encontrar um rumo na vida, o lenitivo à minha angústia, as respostas às questões mais inquietantes da existência. Sei lá.

Outro dia vi um anúncio curioso num jornal de menor expressão, onde havia a foto de uma modelo nua com uma bolota vermelha no meio das pernas (um providencial tapa sexo da gráfica...) e os seguintes dizeres em negrito: “Sexo ao vivo com a participação do público”. Ingênuo como um adolescente virgem num bordel, fiquei especulando que tal participação teria o público num “show” de sexo explícito. Aplausos e palavras de incentivo? Ovação ou afagos nos ovos? Trombadas testiculares? Palavrório de baixo calão? O despejo de vaselina sobre um casal performático? Cuspir, emprestar saliva aos coitos? Arriar as próprias calças  e esperar a sua vez? Sexo com revezamento? Orgia com pessoas estranhas que parecem assim tão familiares? Fiquei intrigado com o anúncio, mas, nem por um instante desejei conhecer a espelunca.

Sexo, vital e fisiológico como beber água ou defecar, pode ser dramático. Há alguns dias acompanhei um amigo que seria submetido à extirpação da próstata, importante órgão da genitália masculina, e que tem papel fundamental da função sexual e na micção. De acordo com o médico, a cirurgia poderia deixar seqüelas, como impotência sexual (30% dos casos) ou incontinência urinária (5% de chance). O câncer até que não preocupava tanto, mas a possibilidade de nunca mais enxergar o próprio pênis ereto quase o fez desistir do procedimento e se deixar corroer pelo tumor. Transou com a namorada na véspera, pensando que talvez fosse pela última vez.

Sem imaginar uma forma mais eficaz para consolá-lo, eu arrisquei uma anedota. Ora, amigo, havia outras formas de se obter prazer sexual na vida. Afinal de contas, sobravam a ele os dez dedos das mãos, outra dezena nos pés, a língua e, em último caso, na bacia das almas, o próprio ânus. Ele gargalhou como a concordar com a piada, e foi levado pela enfermeira bonita que ele nem pôs reparo. A cirurgia teve total êxito.

Sexo, para muitas pessoas, não faz mais nenhum sentido. Foi Dona Matilde quem me contou. Outro dia ela chegou a sua casa de supetão e flagrou a neta rebolando pelada defronte a tela de um computador. A octogenária senhorinha, ao contrário da moçoila, não perdeu o rebolado e a repreendeu: “que bobagem é esta, criatura?”. A moça ficou constrangida, catou as roupas esparramadas pelo assoalho, e justificou que se tratava de um presente para o namorado que viajara para a Austrália. Dona Matilde, que não entende nada de internet e informática, achou tudo aquilo muito besta, sem serventia, e ficou se perguntando se compensava a moça ficar rebolando nua na frente de uma máquina por causa de um homem que talvez nem mais voltasse para o Brasil, ou mesmo já estivesse se ocupando com as mulheres australianas. Com a chegada da senilidade, chegam o reumatismo e a teimosia, mas também, a sapiência.

Sexo vira arma nos afazeres infames dos estupradores e adultos que abusam de crianças. Na maioria das vezes, os algozes são os próprios pais, parentes ou amigos da família que se aproveitam da confiança dos menores para impetrar o horror. Êxtase e prazer de um lado, sofrimento e lembranças abjetas do outro. Quanto mal pode um ser humano infligir à vida de alguém? Parece algo ilimitado. São estórias terríveis muitas vezes escondidas durante existências inteiras. Dramas jamais revelados, senão em desabafos sobre os divãs (àqueles poucos que podem bancar o próprio tratamento), ou nos leitos de morte, no apagar das luzes, nas confissões chocantes, nas derradeiras palavras, no último suspiro, uma chance final para se revelar a verdade antes que o coração pare e a vida suma para sempre. Assim como a dor há tempos ocultada.

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