É impossível ser feliz sozinho?
Gosto muito daquela música do Tim Maia que diz: “De jeito maneira / Não quero dinheiro / Quero amor sincero / Isto é o que eu espero / Grito ao mundo inteiro / Não quero dinheiro / Eu só quero amar”. É uma canção que deveria ser ensinada nas escolas antes que as crianças tomassem gosto pelo consumismo vazio e desenfreado. Um canto a ser entoado no pátio do colégio, junto com o Hino da Bandeira, e no conteúdo das aulas de Religião, que mais entediam do que educam a meninada.
Jarbinhas, por exemplo, um antigo colega de escola, retirava da mochila e distribuía revistinhas de sexo explícito que a gente encartava dentro dos livros didáticos de Religião na sala de aula do Colégio Marista. A mesma escola em que uma professora freira, cuidadosa nos rodeios e metáforas sobre flores, pistilos, gametas e animais da fazenda, tentava ensinar Educação Sexual para uma turma de garotos que já se debulhavam em punhetas e bolinações com as empregadas domésticas. Não seria mais eficaz ter ido direto ao assunto, Irmã?!
Quando criança, fiz um pacto com o meu avô. Na mórbida, porém, ingênua combinação, depois de morto, ele deixaria de herança para mim o relógio de bolso e o revólver 38 com cabo de madrepérola, presentes recebidos de seu pai, meu bisavô.
Os anos se passaram e a vida tratou de me transformar num adulto pragmático atrelado à dedicação unilateral ao trabalho e ao capitalismo. É claro: a corrida insensata pelo chamado “pé-de-meia” me distanciou de casa, da roça e dos parentes.
Um dia, enquanto assistíamos à chuva que despejava sobre o pasto e os bois paralisados, meu avô irrompeu o silêncio da tarde colocando no meu colo uma pequena urna de madeira. “Abre aí, Eberth”. Obediente, eu abri.
Deparei com o relógio de prata e o revólver de empunhadura perolada. Enquanto eu apreciava a relíquia, ele recomendou que dela eu me apossasse, pois estava demorando demais-da-conta pra ele morrer. Que eu fizesse uso cônscio do presente, tomasse muito cuidado com a arma de fogo e a escondesse em cima do armário, fora do alcance das crianças. Tanto assim que me entregava o revólver plenamente desprovido de munição.
Segurei com desproporcional zelo os badulaques. Catei o relógio que, de tão antigo, já não marcava mais as horas. Era uma peça rara, bonita e misteriosa. O revólver, apesar do cano lascado, fora usado poucas vezes para espantar bichos do mato e liquidar animais peçonhentos ou perigosos como a onça e o sucuri. Uma arma que jamais ferira um homem. Portanto, instrumento de nobre valia.
Estiou e a passarinhada começou a revoar, pousando no cercado velho. Meu avô se parecia com um daqueles postes de aroeira. Bebemos outros goles de pinga de engenho destilada ali mesmo naquelas glebas. Enrolou e acendeu mais um cigarro de palha. Eu, que nunca fumara senão para espantar muriçocas na beira do córrego, apreciava o vício de meu avô, cada vez mais apaixonado por ele. Que serventia teriam um relógio travado e um revólver sem balas, eu não fazia idéia. Quem sabe, daria um tempo às coisas. Ou mataria os meus inimigos íntimos imaginários, sei lá. Com o tempo, a fantasia vai definhando dentro da gente. Foi um reencontro feliz naquela tarde de sábado.
Aliás, muitas vezes, nos pegamos perguntando o que é felicidade, sentimento deveras explorado por filósofos, pensadores e poetas de todas as nacionalidades. Nos dias de hoje, um jargão parece adquirir relevância ímpar: dinheiro não traz felicidade.
Durante a semana, um famoso futebolista brasileiro convocou a imprensa no Rio de Janeiro para anunciar que estava abandonando o ofício de atleta profissional por tempo indeterminado. Apesar de jovem, rico e bem sucedido, sentia-se infeliz e jogar bola perdera o significado. Mesmo bajulado pelos torcedores e pela imprensa esportiva, o sujeito, originário de uma das favelas mais violentas do Rio, confessava um dilema ainda indecifrável.
Tenho um parente que partiu do Brasil e foi tentar se encontrar num país longínquo do hemisfério norte, longe da família e dos raros amigos, apesar do emprego estável que detinha numa Universidade Federal, do bom salário e da carreira promissora como docente. Ninguém entendeu nada (falava-se em depressão), mas, assim mesmo, esta pessoa zarpou para garimpar felicidade noutras plagas. Fugindo de si mesmo?! Com saudades, eu lamento, mas não julgo.
Certa vez, ouvi uma confidência desconcertante de um político veterano, patriarca de uma família poderosa em Goiás. O homem segredou com amargura que trocaria toda a sua fortuna, suas empresas e bens mais valiosos, pela saúde completa dos dois filhos, ambos acometidos por uma doença degenerativa rara que definha toda a musculatura do organismo fazendo com que as suas vítimas atrofiem lentamente até a morte. Longe de ser feliz, o pai angustiado aguarda por uma descoberta da ciência ou por um milagre, o que vier primeiro.
Enfim, parece certo que a felicidade emana das coisas simples do viver, como estar próximo, abraçar alguém que se gosta, comer uma comidinha gostosa, ouvir música ou assistir à chuva que cai na roça. Depende do momento. Do estado de espírito. Do contexto em que se vive. O dinheiro pode até facilitar as coisas, pavimentando o caminho pra gente alcançar a tal felicidade. Os exemplos citados acima sugerem que ele não é o ingrediente principal. Priorizar os patrimônios materiais não faz tanto sentido. Assim como este singelo tesouro que carrego comigo: um relógio que não marca o tempo; uma arma que não mata nem mesmo a saudade que eu trago no peito.
*O título da crônica foi pinçado da letra de “Wave” , composição de João Gillberto.






