Dos umbigos
Uns bichos meio xucros, meus irmãos e eu, mas em que pese nossa xucrice, vivíamos bisbilhotando o mundo e inventando o futuro. À falta de coisa melhor, era essa uma de nossas distrações prediletas. E foi numa dessas conversas com que nos distraíamos inventando o futuro que meu irmão um pouco mais velho do que eu lascou a frase profética: Um dia, ninguém mais vai usar roupa.
Estávamos sentados em um banco de madeira, no alpendre, tentando adivinhar com que cor ficariam as nuvens quando o Sol tocasse o horizonte. A imagem das nuvens e suas cores não descolaram mais de minhas hoje cansadas retinas. Assim como a frase assus-tadora, vibrando até agora no tímpano já cansado.
De lá pra cá tudo veio encurtando. Calça curta com tirantes, uma das marcas da infância (Como não me lembrar da primeira calça comprida que usei?), de repente apareceu com nome diferente, uma importação, certamente, que nos veio das Bermudas? Sociólogos, esses camaradas que vivem estudando os comportamentos da gente, devem ter a explicação para o atual nome da calça curta. E os tirantes? Nem tirantes nem suspensórios. Aliás, tirante meu amigo Deonísio da Silva, acho que no Brasil ninguém mais usa suspensórios.
Tudo encurtou. Diz-se, inclusive, que as distâncias também entraram no processo geral. O avião é a prova viva do que estou dizendo. Meu pai sempre deu aula de terno e gravata (Aliás, terno sem colete não é um oxímoro?), e seu filho que vos fala só usa paletó para solenidades, e, como sala de aula nada tem de solene, prefere camiseta regata, ou pólo, ou qualquer outra coisa permitida pela direção da escola.
Mas nada encurtou tanto como as blusas feminis. Elas foram subindo ao mesmo tempo em que as calças foram baixando. A cobertura da parte de baixo não deve chegar a menos de quatro dedos do umbigo, enquanto a cobertura superior não deve se aproximar deste botão sensual que o Criador inventou de botar no ventre das mulheres, para gáudio da homarada. Não que os homens também não tenham esta coisa esquisita por onde nos informam os anatomistas nos alimentávamos em tempos que depois não lembramos mais. Os homens têm. Mas umbigo de homem, confesso a vocês, não tem graça nenhuma.
Difícil encontrar atualmente mulher que não traga exposta sua diminuta rosa pousada na barriga. Algumas são de fato merecedoras de escultura, ou como se diz na modernidade, de um close televisivo. Mas outras, não reparem na falta de humor, mais parecem um pequeno tumor, uma ferida desabrochando, um cravo, uma verruga. Suas donas e portadoras não se tocam do ridículo que é expor partes do corpo sem nenhuma beleza? Ah, sim, e outro detalhe: não existe mais limite de idade para mostrar o umbigo, nem idade tampouco peso. E seria tão simples! Bastava não encolher a blusa.
Mas a ordem geral, nestes tempos, é encolher.
A profecia de meu irmão ainda não se cumpriu, mas agora concordo com ele: caminhamos nessa direção.





