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POR EM 12/06/2009 ÀS 12:23 PM

Desencantares do mundo

publicado em

O poeta já não se ilude: suas palavras não mudam nem moldam o mundo: não elidem seu desvario, nem recuperam a esquecida luz. Os poucos que ainda insistem em caminhar na contramão do absurdo, é porque se sentem vivos mantendo-se fiéis à lucidez do compromisso. Porém, os bosques e os lagos dos parques são espaços de silêncio e de respiro, nas cidades vertiginosas. Poucos, no entanto, são os que se dão o direito de contemplar o silêncio criador do vazio-cheio.
 
Em escala planetária, o animal humano, em vez de elevar-se, rebaixa-se, mergulha na barbárie. Cientistas abalizados concluem que, não havendo uma mudança de consciência, terá a humanidade dois horizontes possíveis: o viver solitário, após haver destruído todas as espécies, ou terá de conviver apenas com as máquinas produzidas por seu compulsivo fazer tecnotrágico. 
 
Assim escreveu José Saramago, em seu blog: “Todos os dias desaparecem espécies animais e vegetais, idiomas, ofícios. Os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Cada dia há uma minoria que sabe mais e uma minoria que sabe menos. A ignorância expande-se de forma aterradora. Temos um gravíssimo problema na redistribuição da riqueza. A exploração chegou a requintes diabólicos. As multinacionais dominam o mundo.
 
Não sei se são as sombras ou as imagens que nos ocultam a realidade. Podemos discutir sobre o tema infinitamente, o certo é que perdemos capacidade crítica para analisar o que se passa no mundo. Daí parecer que estamos encerrados na caverna de Platão. Abandonamos a nossa responsabilidade de pensar, de actuar. Convertemo-nos em seres inertes sem a capacidade de indignação, de inconformismo e de protesto que nos caracterizou durante muitos anos. Estamos a chegar ao fim de uma civilização e não gosto da que se anuncia.
 
O neo-liberalismo, em minha opinião, é um novo totalitarismo disfarçado de democracia, da qual não mantém mais que as aparências. O centro comercial é o símbolo desse novo mundo. Mas há outro pequeno mundo que desaparece, o das pequenas indústrias e do artesanato. Está claro que tudo tem de morrer, mas há gente que, enquanto vive, tem a construir a sua própria felicidade, e esses são eliminados. Perdem a batalha pela sobrevivência, não suportaram viver segundo as regras do sistema. Vão-se como vencidos, mas com a dignidade intacta, simplesmente dizendo que se retiram porque não querem este mundo”. 
           
Isto Saramago já sabia – poderia ter lembrado de que ainda vivemos na caverna de Platão, iludidos ou escravizados pela super-informação massiva e vazia da internet e da televisão. Quanto a mim, digo que, nas cidades trepidantes, sobrevive-se no limite do risco: ondas de assalto, até mesmo nas antes pacatas cidades de interior, são a consequência direta do flagelo das drogas. Onde se vivia devagar, sem medo e ansiedade, famílias associam-se em atividades criminosas, atacam em bandos, em arrastões de selvageria e maldade, não mais se irmanam para a solidariedade e o convívio fraternal. 
           
Romperam-se os diques do decoro; ter vergonha na cara deixou de ser requisito para o viver em comunidade e o respeitar a si próprio. Não é mais visto nem no convívio indiferente ou hostil entre pais e filhos, que atritam-se contra seus provedores, como pérfidos monstros anti-vida. Onde buscar segurança, quando a simples anarquia se espalha pela terra, e a insanidade do Homo Economicus devasta os recursos não renováveis do planeta – a moldura e morada do Homo Sapiens, tornado Homo Demens por sua mente insana e selvagem? 
           
Indiferentes à fúria e à pressa da cidade, tornada pauleira pura, pelo Homus Economicus, que não tem tempo para ser feliz, as maritacas passam, junto a outros passam, em revoadas que fazem lembrar a paz que podemos ser. Ao voo da leveza assisto, comovido, escutando o estrondo da cidade trepidante – e dá-me uma estranha nostalgia de não ser leve como as aves. Súbito, veem-me à mente os versos do poeta Wallace Stevens: “Guarda tuas palavras/guarda teus gestos/guarda até teus pensamentos/Com quem estarás, quando estiveres no paraíso? /Com os pássaros, talvez – apenas com os pássaros”. 
 
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