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POR EM 27/05/2010 ÀS 04:59 PM

Delírios da mente

publicado em

São muitas as vozes a ecoar interminavelmente em nossa mente. Pensamentos replicados, distorcidos, agarrados no rabo uns dos outros (em média 60 mil pensamentos por minuto – isto nas pessoas ditas normais. Nos obsessivos, neuróticos e compulsivos, é muito mais). Na grande maioria, são vozes dementes, frutos de um pensamentar sem freio e sem consciência, como se fôssemos máquinas extraviadas da sanidade. É como escreveu o professor-poeta José Fernandes: “Se o cérebro estivesse no calcanhar, homem algum correria o risco de pegar frieira, mas a cabeça andaria de chinelos”. 
O ideal de vida seria escapar à rota de destruição da natureza, da saúde física e mental, consequências da inversão de consciência que transformou o Homo Sapiens em Homo Demens. Escapar do absurdo na jornada da lucidez, como nos diz um poema magistral de Cecília Meirelles: “Ser sempre o outro, ser sempre o mesmo, longe e dentro de tudo”. Ou seja, permanecer na lucidez do compromisso, em constante renovação e mudança, sendo parceiro de Deus no projeto da criação. O invejoso sente-se infeliz com a felicidade do outro. Só tem contentamento, ou pérfida euforia, em detrimento do bem estar da pessoa a quem inveja. Só com sua derrota e suas perdas ele se sente bem. O bem estar do outro é a causa de seu mal estar de viver.
Fernando Pessoa deu voz às outras vozes que alimentava dentro de si – sua voz lírica plurificada falou por muitos de nos. Sendo maduro, em seu jeito de não ter endereço em si mesmo, mero guardador de livros e tradutor comercial, lamentou não ter estado ao pé de Alberto Caieiro, em seu enterro, mesmo considerando-se um Zé-ninguém, perto da grandeza daquele a quem deu voz. E mesmo considerando ser Fernando Pessoa-ele mesmo um nada, ou um ninguém, encontrou em sua alma intemporal a criança divina, a quem prestou mística devoção. Assim, precisou ser muitos, “multiplicou-se, não fez senão extravasar, erguendo em cada canto de sua alma um altar a um Deus diferente”.  
Saindo da metafísica e caindo no caos da modernidade líquida que em nossa pátria idolatrada urra e berra: tão absurda se tornou a realidade no mundo que tudo perdoa, menos o ser feliz sem máscaras ou disfarces, que fazer subcultura de lixo virou o grande nicho da arte: dá fama e lucro a criaturas grotescas, com suas intervenções ruidosas e trepidantes, de mau gosto gritante. Há vários tipos de deficiência, mas a que é mais digna de lástima (e de pesadas multas) é a deficiência de humanidade, a distorção ou aleijão da cidadania. Onde a nata do luxo se confunde com a nata do lixo? 
Sendo o único animal capaz de criar resíduos que a natureza não recicla, o ser humano acabará soterrado pelo próprio lixo que produz. As cidades grandes já não sabem o que fazer dos lixões, e há países, como os EUA, que os exportam para países pobres, criando continentes de lixo, ou simplesmente atirando seus entulhos e detritos ao mar. Todos os outros animais processam seus resíduos, não poluem os ambientes onde vivem. Só o humano produz resíduos que a natureza leva milhões de anos para processar.  
Nosso país tudo faz para não trair a vocação para a malandragem macunaímica, como a pintou Mário de Andrade, nisto que eufemisticamente chamam de rapsódia, mas que é um retrato em branco e preto do mau caráter (ou caráter não nascido) do brasileiro médio em geral. Um só exemplo: neste ano as centrais sindicais (braços corporativos da governança petista) comemoraram o Dia do Trabalho exigindo que brasileiros e brasileiras trabalhem menos.
Tantos shows, milionários, mal pagos ou mambembes foram patrocinados pelo governo e seus braços sindicais, por este Brasil afora, que é de se afirmar: se show for garantia ou indício de cultura, nosso povo tende a ser o mais culto do mundo. No mais das vezes, shows são oferecidos às massas ululantes e ignaras como diversão, pão e circo. Fazem massas frenéticas entrarem em delírio, satisfeitas simplesmente por não estarem mais famélicas. Entram deliram, a idolatrar os seus ídolos, sempre a divertir-se, mas divergindo do alvo, e nunca acertando o endereço de realidade do país e de si próprias.  

São muitas as vozes a ecoar interminavelmente em nossa mente. Pensamentos replicados, distorcidos, agarrados no rabo uns dos outros (em média 60 mil pensamentos por minuto – isto nas pessoas ditas normais. Nos obsessivos, neuróticos e compulsivos, é muito mais). Na grande maioria, são vozes dementes, frutos de um pensamentar sem freio e sem consciência, como se fôssemos máquinas extraviadas da sanidade. É como escreveu o professor-poeta José Fernandes: “Se o cérebro estivesse no calcanhar, homem algum correria o risco de pegar frieira, mas a cabeça andaria de chinelos”. 

O ideal de vida seria escapar à rota de destruição da natureza, da saúde física e mental, consequências da inversão de consciência que transformou o Homo Sapiens em Homo Demens. Escapar do absurdo na jornada da lucidez, como nos diz um poema magistral de Cecília Meirelles: “Ser sempre o outro, ser sempre o mesmo, longe e dentro de tudo”. Ou seja, permanecer na lucidez do compromisso, em constante renovação e mudança, sendo parceiro de Deus no projeto da criação. O invejoso sente-se infeliz com a felicidade do outro. Só tem contentamento, ou pérfida euforia, em detrimento do bem estar da pessoa a quem inveja. Só com sua derrota e suas perdas ele se sente bem. O bem estar do outro é a causa de seu mal estar de viver.

Fernando Pessoa deu voz às outras vozes que alimentava dentro de si – sua voz lírica plurificada falou por muitos de nos. Sendo maduro, em seu jeito de não ter endereço em si mesmo, mero guardador de livros e tradutor comercial, lamentou não ter estado ao pé de Alberto Caieiro, em seu enterro, mesmo considerando-se um Zé-ninguém, perto da grandeza daquele a quem deu voz. E mesmo considerando ser Fernando Pessoa-ele mesmo um nada, ou um ninguém, encontrou em sua alma intemporal a criança divina, a quem prestou mística devoção. Assim, precisou ser muitos, “multiplicou-se, não fez senão extravasar, erguendo em cada canto de sua alma um altar a um Deus diferente”.  

Saindo da metafísica e caindo no caos da modernidade líquida que em nossa pátria idolatrada urra e berra: tão absurda se tornou a realidade no mundo que tudo perdoa, menos o ser feliz sem máscaras ou disfarces, que fazer subcultura de lixo virou o grande nicho da arte: dá fama e lucro a criaturas grotescas, com suas intervenções ruidosas e trepidantes, de mau gosto gritante. Há vários tipos de deficiência, mas a que é mais digna de lástima (e de pesadas multas) é a deficiência de humanidade, a distorção ou aleijão da cidadania. Onde a nata do luxo se confunde com a nata do lixo? 

Sendo o único animal capaz de criar resíduos que a natureza não recicla, o ser humano acabará soterrado pelo próprio lixo que produz. As cidades grandes já não sabem o que fazer dos lixões, e há países, como os EUA, que os exportam para países pobres, criando continentes de lixo, ou simplesmente atirando seus entulhos e detritos ao mar. Todos os outros animais processam seus resíduos, não poluem os ambientes onde vivem. Só o humano produz resíduos que a natureza leva milhões de anos para processar.  

Nosso país tudo faz para não trair a vocação para a malandragem macunaímica, como a pintou Mário de Andrade, nisto que eufemisticamente chamam de rapsódia, mas que é um retrato em branco e preto do mau caráter (ou caráter não nascido) do brasileiro médio em geral. Um só exemplo: neste ano as centrais sindicais (braços corporativos da governança petista) comemoraram o Dia do Trabalho exigindo que brasileiros e brasileiras trabalhem menos.

Tantos shows, milionários, mal pagos ou mambembes foram patrocinados pelo governo e seus braços sindicais, por este Brasil afora, que é de se afirmar: se show for garantia ou indício de cultura, nosso povo tende a ser o mais culto do mundo. No mais das vezes, shows são oferecidos às massas ululantes e ignaras como diversão, pão e circo. Fazem massas frenéticas entrarem em delírio, satisfeitas simplesmente por não estarem mais famélicas. Entram deliram, a idolatrar os seus ídolos, sempre a divertir-se, mas divergindo do alvo, e nunca acertando o endereço de realidade do país e de si próprias. 

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