Da alienação
Encerrei o ano de 2009 lá pelo dia 15 de dezembro, claro, porque daí em diante tudo era festa. Encerrei o ano pensando em férias e de férias pretendia ficar pelo menos até o fim de janeiro. Sombra e água fresca no fundo do meu quintal. Foi então que descobri ser a alienação um estado involuntário. De nada adianta querer: é preciso ser. Eu fugia do mundo, mas ele continuava traiçoeiramente a me enredar.
2010 nasceu sob o signo de grandes desastres. Signo maldito que se repete a cada 365 dias com modificações apenas na superfície. Logo no início deste ano, o Brasil abalou-se com os estragos causados pelas chuvas. Angra, São Luís de Paraitinga, Agudos foram nomes que frequentaram a mídia por muito tempo. Muitos prejuízos sendo o maior deles as vidas que se apagaram. Geógrafos, geólogos, políticos sugerem sempre as mesmas medidas necessárias e que não serão tomadas. O povo tem memória curta, em março ninguém mais vai se lembrar do assunto.
Em janeiro acompanhamos o desenrolar da novela Arruda e os 40 ladrões que tinha começado no ano anterior. A desfaçatez dos protagonistas, seu imenso cinismo, são causas para indignação. Como podem zombar a tal ponto da opinião pública? Bem, poder eles podem, talvez com justa razão: nas próximas eleições lá estarão eles reivindicando nossos votos e muitos de nós, brasileiros, vamos continuar a elegê-los. Eles sabem disso. Agora as notícias que nos chegam do Haiti. Tanta miséria sem a colaboração da natureza já não era suficiente? Um desastre de proporções desconhecidas neste lado do novo mundo.
Nós, brasileiros, fomos mutilados com a perda de diversos soldados em missão de paz a serviço da ONU e com a morte de Zilda Arns, no Haiti a serviço da humanidade. Não conheço muito o trabalho dessa mulher, mas o pouco que conheço a consagra como uma das criaturas que nos salvam do egoísmo calhorda.
Hesito muito em acreditar na raça humana como sendo uma espécie viável, e são muitas as razões para isso. Nos parágrafos acima existem exemplos de boas razões para a incredulidade. Mas há momentos em que minha descrença fica abalada, e a lembrança dessa médica brasileira, que na vida esteve quase sempre a doar-se àqueles mais fracos, portanto mais carentes, é uma brisa fresca para afastar os ventos mefíticos que se abatem sobre nós. Ela continuará sempre como a alegoria da solidariedade.
Adeus, Zilda Arns. Em teu nome voltei das férias.





