Crise
A água que bebemos das torneiras de casa deve estar envenenada. Penso que andamos tão afetados emocionalmente que esta hipótese até seria plausível. Por onde passo encontro gente triste, descrente com as coisas do viver, à beira de um colapso nervoso. “Vou levando”. “Tô na briga”. “É como Deus quer”. Amiúde, é o que se ouve nas ruas.
Com esta estória então de “crise econômica globalizada” não se fala noutra coisa senão nas desgraças iminentes. Não há quem se abstenha em reclamar. Parece que vivemos um muro das lamentações generalizado. Pessimistas convictos esperam o pior. “Você vai ver só”. Alguns garantem que a crise já está entre nós e vai piorar muito... “Só não enxerga quem não quer”. Cegos de medo, miramos o perigo com lunetas premonitórias. Nunca estivemos tão acovardados.
Talvez, o maior responsável pela atmosfera negativista que paira sobre as cabeças seja Gutenberg. Sim, Gutenberg, o alcunhado “Pai da Imprensa” (ou, pelo menos, o “Pai da tipografia”...). Desde a difusão das primeiras notícias, a humanidade avançou em todas as áreas. O poderio dos meios de comunicação é monstruoso e não encontra par na sociedade. A confusão é grande: informação e manipulação se mesclam numa combinação repugnante. Inferir da notícia o que ela guarda em essência é inviável à maioria de nós. Para uma comunidade iletrada, então, vale o que está dito ou escrito, literalmente.
Felizmente, pouco tenho assistido à televisão. Quando o faço, sintonizo os noticiários que hoje em dia mais parecem o diário do capeta. Tragédia pouca é bobagem. É difícil filtrar uma notícia promissora. Fica sempre aquela amarga impressão (talvez, realista demais) que o mundo é uma desgraça absoluta. Cinicamente, os editores reservam um tempo ridículo ao final dos noticiários para amenidades como receitas gastronômicas, dicas de moda, futilidades futebolísticas, idolatria barata a um popstar e outras tapeações para “quebrar o gelo”. É uma prática tacanha à altura da subserviente audiência.
Quem sabe se o culpado pelo baixo astral seja eu próprio. Outro dia, uma amiga telefonou muito preocupada. Leitora assídua das minhas crônicas pela internet, a moça podia jurar eu estivesse depressivo, dado ao sabor amargo das mesmas. Amiga, não se preocupe. Sinto-me feliz com a sua leitura e zelo. Você captou bem, mas não quero tomar raticida (ainda). Tão somente ando cético com o ser humano, criatura vil.
Enfim, alguma coisa está fora da ordem. Se o problema não está na água das torneiras, na saga de Gutenberg e seus sucessores antiéticos, ou na minha repelente aura, onde estaria? Quem sabe, um impensável raio-trator emitido por naves alienígenas esteja nos deixando alterados em doses homeopáticas. Quem sabe, um complô universal advindo de criaturas de outras galáxias esteja em curso a fim de frear o ímpeto destruidor da humanidade sobre o meio ambiente e sobre si própria.
Sei lá, toda bobagem merece algum crédito. Encontramos no sobrenatural e no esoterismo a tábua da salvação, muito embora não consigamos nos abraçar sem desconfiança. Talvez o mundo seja assim mesmo e pronto: plural e ilógico. O diferencial é que na atualidade contamos com a rapidez dos meios de comunicação que difundem as virtudes e as malfadadas ações dos homens a todos os rincões do planeta. Amostragem viciada? Somos assim mesmo tão ruins?
Talvez, a constatação do quanto somos hipócritas esteja nos corroendo por dentro e nos tornando ensandecidos, consumidores contumazes de cápsulas e comprimidos tranqüilizantes, um bando de gente assustada e sem perspectiva de melhoria nas relações humanas.
Quem sabe, não seja nada disso, e as minhas aflições sejam infundadas, e eu esteja apenas carecendo de um competente psiquiatra. Ou de um ombro amigo. Ou de um copo de uísque. Ou de todas estas coisas juntas. Deve ser isto...





