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POR EM 24/04/2010 ÀS 11:09 AM

Crimes da boa consciência

publicado em

Joseph Stálin e Adolf Hitler

Recente artigo publicado pelo escritor Flávio Paranhos, nesta 'Bula', aborda com propriedade os equívocos coletivos (aceitos e aplaudidos) no que concerne à abstração — metafísica, portanto — a que chamamos de Consciência, sem saber do que isto se trata, ao fim e ao cabo. Atrevo-me a fazer reflexões em torno do tema, porque o estudo, e por considerar pertinente a investigação sobre o mesmo. Começo por afirmar que ninguém pode ter uma essência boa tendo uma existência má: pelas frutos se conhece a árvore (ou o inverso). Uma canção da MBP fere o assunto com malícia: “Você não sabe o que é consciência/tudo o que você vê/ você quer/ Ai que saudades da Amélia/aquilo sim é que era mulher/Às vezes passava fome ao meu lado/e achava bonito não ter o que comer/”. Perguntazinha besta: ter consciência é ter tudo o que se quer, gostar de apanhar, e de não ter o que comer?”. O caso problematiza a velha questão da Mulher-Amélia, mas desborda daí para outros equívocos caídos nos usos e costumes, grudados até no visgo das leis. 

Assim como crimes coletivos existem, como massacres e genocídios, produzidos pela “boa consciência”, por motivos religiosos, étnicos, políticos e até filosóficos, há de se reconhecer que a não aceitação de nossa má consciência é que nos faz viver na errância em que vivemos, a produzir desastres ambientais em série, a ponto de termos colocado o planeta em uma crise de proporção global, num Armagedom que ameaça a sobrevivência da raça humana, ante o desaparecimento de biomas inteiros, e fontes de vida essenciais. Se o que chamamos de consciência for a opiniões que as pessoas têm de si próprias, haveremos de convir que só existem santos e heróis neste mundo — poucos admitirão ter levado porrada, ou ter falhado em tudo, como o confessou Fernando Pessoa, por seu heterônimo Álvaro de Campos. Quem admite que brochou, não honrou seus compromissos, deixou de pagar a quem devia, vomitou em público, que levou porrada, e humilhou-se ante o tapete das etiquetas? 

Em nome de Deus, da pátria e do amor nos matamos. E cometemos crimes hediondos. Também aprisionamos pessoas em nome da liberdade — por discordarem de nossas crenças religiosas, ideológicas e políticas. Esta tem sido a trágica realidade vivida pela humanidade, milênio após milênio, com a ferocidade e brutalidade dos métodos só aumentando. A sucessão de programas de deportação em massa, por ódio e intolerância religiosa, racial ou de cor, por “crimes de opinião”, bem como os atentados terroristas que levam destruição e morte a milhares de pessoas inocentes, é uma prova de que o advento não nos tornou mais humanos. Em muitos aspectos, além de nos tornarmos desumanos, em relação à natureza e aos nossos semelhantes, nos tornamos insanos, selvagens e hediondos. 

O desejo dos seres humanos para estereotipar, encarcerar e desumanizar os outros repete-se em muitas sociedades, em tempo de guerra ou de paz. Este desejo perverso, muitas vezes chega às raias da barbárie, embora seja exercido em nome da boa consciência, ou tendo como justificativa a lealdade a Deus, ou o amor à Liberdade. Adolf Hitler e Joseph Stálin foram sombrios personagens desta longa história da insanidade política a lastrear toda espécie de crimes contra a humanidade. Eles representam o trágico testemunho de que, em um mundo governado pelo medo, os que tentam escapar ao rebanho dos condenados são perseguidos, deportados, ou colocados em guetos ou são levados a morrer em campos de concentração. 

A paranoia vigora tanto dentro do sistema quanto fora dele, na mente de quem persegue e de quem é perseguido. Ambos são vítimas, ainda que os primeiros atuem como carrascos, representando a um só tempo os poderes legislativo, judiciário e executivo, uma vez que impõe a sua lei, julga e executa aquele que escolheu para ser o bode expiatório de sua insanidade religiosa, racial ou política. Assim, todos se transformam em prisioneiros — tanto os encarcerados quanto os seus carcereiros. Os primeiros sendo encurralados pelo seu ódio, e os últimos morrendo em vida, aprisionados pelo seu medo. 

Os ditadores, transformados em déspotas (esclarecidos ou não) intitulam a si mesmos de guias geniais dos povos, e faróis da humanidade. Com base no método irracional de sua loucura, determinam quem tem o direito de viver ou quem deve morrer, ser feito prisioneiro, perder todos os seus direitos civis, ser privado da cidadania e do convívio com sua família. 

Tudo em nome da liberdade, que não suportam, e da verdade, que ignoram. O que melhor expressa essa realidade, do que os campos de extermínio de Hitler e de Stálin? A diferença é que os crimes de lesa-humanidade de Stálin contam com a complacência e até mesmo com o apoio e a simpatia dos intelectuais de esquerda e da intelligentzia encastelada nas torres de marfim das universidades. 

Sartre fingiu não ter tomado conhecimento dos crimes hediondos de Stálin (talvez mais numerosos e mais atrozes que os de Hitler) para poupar o operariado francês de “entrar em desespero”. Talvez outros horrores tenham continuado a ocorrer, como os fuzilamentos em Cuba, ou os massacre nas ruas de Ruanda, em função deste não querer ver a realidade. Não deletemos da memória a desumanidade do apartheid, na África do Sul, e da segregação racial, praticada contra os negros, nos EUA. 

Os crimes de Stálin não foram senão o rigoroso cumprimento do programa de Lênin: “O mundo se familiarizou com nomes como Auschwitz e Dachau, com os horrores dos campos onde 6 milhões de judeus foram exterminados juntamente com ciganos, homossexuais e outros grupos repudiados pelo regime racista do Terceiro Reich. Mas a História não fixou na memória coletiva os de Vorkuta ou Kolyma — parte da rede de campos soviéticos (mais de quatrocentos) por onde passaram 18 milhões de prisioneiros entre 1929 e 1953, seu período de máxima expansão. Eram inimigos reais ou imaginários de Joseph Stálin. Trabalhos forçados e privações provocaram a morte de 3 milhões deles”, escreve Sílvio Boccanera, na “Revista Leitura”. Sem falar no massacre de 15 mil oficiais poloneses, ordenado por Stálin na segunda Guerra Mundial, na floresta de Kátin. Tudo em nome da “boa consciência ideológica” do “guia genial dos povos” e “farol da humanidade”. 

Para a escritora e jornalista Anne Applebaum, “Na URSS de Stálin, a diferença entre a vida dentro e fora dos campos era apenas de grau. Na gíria dos presos, o mundo fora do arame farpado não era a liberdade, e sim a bolshaya zona, a zona prisional grande”. Qualquer país será transformado em uma grande zona prisional, se nele o amor à liberdade, à justiça social e à supremacia racial servir de pretexto para matar e tornar prisioneiros os que ousarem discordar. Isto será verdadeiro tanto em países submetidos a ditaduras de esquerda quanto a regimes totalitários de direita. 

P.S. Um sinal de que o ódio não é bom conselheiro, mas pode levar uma pessoa a tornar-se ministra nos dá a titular da Secretaria de Proteção da Igualdade Racial. Em lamentável entrevista, com exemplar infelicidade, uma autoridade federal, a quem foi entregue a tarefa metafísica de promover a “igualdade entre as raças” — como se tal possa ser feito por decreto — foi por ela mesmo dito que seu Ministério trabalha pela igualdade racial incentivando a discriminação de negros contra brancos, tentando tornar legítimo o preconceito ao inverso? O ato de querer reparar um irreparável crime de lesa-humanidade (por não se poder rebobinar o tempo) pode ser mais um desses crimes da boa consciência, que recebem tantos aplausos, e até vultosas e venais verbas públicas. 

A Secretária, pega em flagrante em ato de usar e abusar de ser mais igual do que os demais brasileiros, gastando a rodo com seu cartão corporativo, justificou não só o ódio em si, mas a prática da hostilização de brasileiros, iguais em direitos. A pergunta a fazer é: combate-se a discriminação racial incentivando a sua prática? Se antes padecíamos com o racismo não declarado, agora ele se torna explícito, erige-se em incentivo ao ódio. Neste país do “povo cordial” vamos nos encaminhando para termos a mais perigosa forma de racismo, a que é defendida e instituída pelo Estado, em nome de uma pretensa e raivosa reparação de danos, perpetrados e sofridos por várias gerações antes da nossa, não cabendo a hipótese de outros pagarem, ou serem ressarcidos pelos crimes perpetrados ou sofridos, em época histórica para a qual não concorreram os cidadãos que habitam a nave do presente.

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Comentários (1)

  • E nuestro amigo Pinochet, el chicago pibe? E os nossos generais envergonhados, depois escancarados e finalmente desmoralizados? O que dizia o mui louvado Nelson Rodrigues dos generais de 64, hein? Foi só Sartre que "tapou os olhos"? A escravidão virou apenas significante (words, words, words, diria Hamlet filho) sem sentido em livros de História, o pesadelo do qual ninguém quer acordar? O cinismo venceu?

    2 anos atrás por Pedro


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