Convescotes de cascavéis
Uma pessoa me pergunta: poeta, como é que um leitor pode se prevenir para não comprar gato por lebre, se indo à noite de autógrafos de um livro compra-o sem conhecer seu conteúdo? Respondo: é sempre um risco a correr, visto que não temos crítica prévia, não passando as notícias sobre lançamento de resenhas informativas, feitas a partir de dados fornecidos pelos autores.
Então, como se compra o produto às cegas, confiando-se apenas no re/nome do autor que lança mais uma ventania no vendaval de produções literárias, que o poetariado lança, a mão cheia, o jeito é conferir quando se chega em casa, e se desembrulha o imbróglio. Mas existem (e estes são os piores) os piolhos letrados, que vão aos coquetéis, como e bebem como se fossem pantagruéis, não compram nem lêem nossos livros, e se põem a dizer que são execráveis.
Ocorre de ter o leitor surpresas desagradáveis, visto que certos autores fazem questão de piorar, à medida em que o tempo passa, presumindo-se que tenham adquirido maior experiência literária. É que alguns autores, acometidos de pós-modernices, tornam-se tão vanguardistas que se tornam não palatáveis, ou ilegíveis. E quanto mais papam prêmios, na praça associada, piores ficam.
Explico ao leitor curioso que o público presente aos lançamentos é constituído quase sempre de familiares, estóicos amigos e companheiros de escrevinhação, pressupondo-se, com isto, que têm a maior boa vontade em só ver qualidades nas obras que levam para casa, mesmo se tratando de abobrinhas intragáveis, ou de atletismos formais intragáveis.
É certo que aos lançamentos de livros também comparece a turma “do contra”, constituída pelos inimigos cordiais – gente que vai às noites de autógrafos para falar mal dos autores e de suas obras – as quais não leram, mas já detestam, com ódio furibundo, e convicção inabalável. Mas tudo fica na indústria do fuxico, circulando em tele-fonemas repletos de maldades sibilinas.
Estes que fazem malabares com palavras lançam uns contra os outros suas línguas ferinas, que são facas feridoras, no inferno civilizado da fogueira das vaidades. É certo que mesmo as badaladas “noites de autógrafos” d´antanho estão saindo da moda – dito de outro modo: para tais badalações literárias quase ninguém mais está dando bola.
A não ser familiares e pessoas do círculo de amizades, que comparecem a tais inaugurações por mero e sofrido cumprimento de obrigação, pouco se vê do que poderia chamar de “leitores”, na legítima acepção da palavra, isto é, pessoas interessadas em ler bons livros, porque se interessam por boa literatura, e não por serem amigos, colegas ou cupinchas dos escribas contumazes e incansáveis escrevinhadores. Não raramente, colegas do poetariado comparecem para falar mal do livro que está a ser lançado, ainda que não o tenham lido.
Nisto seguem a perfídia traiçoeira que é própria à sua natureza: desancam com sibilinos ou descarados imprompérios a obra que está a lançar o colega, enquanto se empanturram com a cerveja, o uísque e os salgadinhos que com sacrifício até de seus bacorinhos ele providenciou, para não deixar os convidados na secura. Pois é bem de nosso Boiás este costume de nada fazer na área cultural sem que (com ou sem patrocínio) seja oferecido aos convidados banquetes pantagruélicos. Tal é a força dos usos e costumes que ninguém se atreve a "lançar um livro" na praça em tardes ou manhãs de autógrafos em que leitores pegam o livro, cumprimentam o autor, e vão embora, como é de praxe nos grandes centros culturais, onde a cultura não é vista como símbolo de farta bebedeira e comilança.
Em fogos fátuos trocam autógrafos amenos, fingindo não serem hienas. Certos autores sofrem da fúria fescenina de fingir dores alheias, como se fossem carpideiras de mortes que não são suas. Não tendo sido jamais verdadeiros, não podem ser inteiros. A não ser quando manobram palavras como se fossem mísseis assassinos, vendo os signos como ninhos de cascavéis em que se transformaram, estes que se transformaram em per-versos menestréis. Pois, como escreveu João Guimarães Rosa, há escritores que lemos para a literatura, e outros que lemos para a vida.
A maioria dos escribas dedica-se a fazer biscoitos, destinados a serem intragáveis, poucas horas depois de feitos, em vez de construir pirâmides, como só alguns o fazem. Isto defencia Guimarães Rosa, um dos poucos que ergueram ao menos uma pirânide (seu “Grande Sertão:Veredas”) destinado a vencer o “esquecimentol”, por séculos afora.
Eu acrescento: certos autores só insistem no ofício para passar raiva em seus eventuais leitores obrigatórios. Escrevendo e publicando às pencas, não dão tempo a seus estóicos leitores, arrebanhados a fórceps, à custa de um assédio obstinado e incessante, de digerir seus imbróglios, tendo que suportar outros, que não param de chegar.















