Conspiração a favor
Creio que seja um dos lugares-comuns mais explorados pela literatura de autoajuda a noção de que quando alguém deseja alguma coisa com todo empenho e por ela luta com afinco, o universo inteiro conspira a favor.
Pelo meu temperamento erradio, anárquico e por que não dizer, um tanto pessimista, sou de ordinário propenso a crer mais na conspiração contrária, que ficou conhecida entre nós como A 1ª Lei de Murphy: “Se alguma coisa pode dar errado, dará. E mais, dará errado da pior maneira, no pior momento e de modo que cause o maior dano possível”.
Mas pelo menos uma vez em minha vida posso testemunhar que essa tal de conspiração a favor fez chover na minha horta. Entre 1988 e 89, estando residindo em Iporá, me achava absorvido pela a ideia ambiciosa de escrever um romance em que um dos papéis de parede fosse o golpe militar de 64.
Eu chamo de ambiciosa não a ideia propriamente de escrever um romance. Mas a de usar o golpe militar como circunstâncias. Não tendo eu participado do golpe, nem como vítima nem como algoz. Não conhecendo ninguém que tenha participado. Sem contar que imprensa da época sofreu pesada censura, de modo que quase nada revelara sobre o assunto. E até então os arquivos da ditadura permaneciam lacrados, não havendo havia obras sobre os detalhes das operações dos milicos contra os ditos subversivos.
Foi então que no meio de uma tarde, estando eu em meu trabalho na agência da Caixa Federal, me apareceu um sujeito de meia idade, cabelo esbranquiçado, meio careca e, cheio de tiques nervosos, me perguntou:
- Então é você que tá escrevendo um livro sobre o golpe militar?
Confesso que levei um susto. Mas ao mesmo tempo senti uma ponta de orgulho; a pergunta fez os clientes me olharem com certa estranheza e admiração. Fiz um aceno confirmativo de cabeça, amparado por outro de mão, para que ele me aguardasse.
Daí a pouco eu o puxei até a copa para tomarmos um café. Me falou que tinha todas as informações que eu precisava. É que ele teria sido militar e atuara nas operações mais escabrosas. Se eu tivesse interesse era só encontrá-lo ao fim do expediente no Pôr-do-sol (um boteco na mesma praça), desacompanhado, sem máquina fotográfica, nem gravador. Ah, que eu não lhe perguntasse o nome nem o itinerário.
A tarde custou a passar, mas às 6 cheguei, bloco de papel e caneta na mão. Ele já estava à mesa, num cantinho, e me falou: pode guardar essas coisas, se não você vai perder o que vou lhe contar. Com olhar desconfiado e cheio de tiques, foi debulhando tudo. Cada história mais cabeluda que a outra, me deixando boquiaberto.
Usei tudo o que ele me contou para montar “A Centopeia de Néon”, romance que me valeu o Prêmio Nacional do Paraná, e que agora chega à 5ª edição. Eu temia que quando a caixa-preta do golpe se abrisse, minha história soasse falsa. Mas, para minha surpresa, tudo estava tão certo como 2 e 2.















