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POR EM 15/01/2010 ÀS 10:17 AM

Como pisar no coração de uma mulher

publicado em

“Eu sei como pisar no coração de uma mulher / Já fui mulher, eu sei / Já fui mulher, eu sei”— Chico César, cantor popular 

Fotografia de Jorge MiguelQuer mesmo ferir uma mulher? Então a estupre. Faça isso com o pênis, os dedos das mãos, um objeto de aparência fálica ou, simplesmente, com palavras. Aliás, ferir com as palavras é bastante eficaz ao ofensor e edifica morada duradoura na memória de uma mulher, quiçá por toda a vida. Foi Múcio, o médico guru, quem me contou: ele cuida de uma paciente que nunca mais teve um orgasmo desde que o marido a repreendeu que ela parasse de gritar e uivar de tesão, pois mais se parecia com uma puta. Percebem como é fácil pisar no coração de uma mulher?!

A sexualidade humana provê matéria prima abundante para devaneios de leigos e ensaios dos estudiosos. Entendê-la, aceitá-la são desafios. Salvo algumas poucas espécies de primatas, o homem é o único animal na natureza que busca no sexo instrumento para obter divertimento e prazer, ou seja, o chamado sexo sem fins reprodutivos, tão abominável nas sagradas escrituras.

Recentemente, brasileiros que trabalham clandestinamente em garimpos do Suriname foram atacados de forma massiva pelos nativos. Mais conhecidos como “marrons”, os agressores descendentes de escravos fugitivos invadiram uma área habitada por brasileiros para barbarizar, surrar, matar, e vingar o suposto assassinato de um surinamês por um brasileiro.

O ataque aconteceu na noite de Natal, pegando a todos de surpresa. Não bastassem pauladas e linchamentos, sabe-se que várias brasileiras foram atacadas sexualmente pelos algozes. Tento imaginar o cenário da barbárie, mas não consigo. Faço esforço descomunal para entender de que forma a introdução, à força, de um pênis dentro da vagina (ou do ânus) de uma mulher desconhecida apaziguaria o sentimento de revolta e faria justiça de verdade. Os “marrons” não pensavam assim ao ejacularem em suas vítimas. 

Oficialmente, as autoridades locais contaram uns vinte estupros. Ainda que fosse apenas um, já seria deplorável, um acinte à razão, mais um indício que a humanidade é mesmo desumana. Crer que a raça humana tenha conserto é exercício para doidos, ignorantes, idiotas ou fanáticos religiosos.

O que mais surpreende, além da selvageria e da maldade, é a resignação das vítimas. A maioria dos garimpeiros ilegais recusa-se a deixar o Suriname. Garantem não ter para onde ir, e não dispor de outra forma de “trabalho digno” para sobreviver. Então, vão se sujeitando aos revezes da vida, como se fossem fenômenos naturais, tsunamis, terremotos, erupções vulcânicas, algo incontrolável que só mesmo Deus pra cuidar da gente. A ignorância dos garimpeiros é bem maior do que as toneladas de ouro que se acredita estão enterradas no seio da Amazônia.

A capacidade de adaptação do homem ao ecossistema impressiona. Os esquimós e seus friorentos iglus. Os nômades do deserto. Os flagelados do sertão nordestino. Os desabrigados das áreas de risco repetidamente inundadas pelas chuvas e pelo barro, ano após ano. Os condenados amontoados às dezenas dentro de celas insalubres dos presídios brasileiros, decorando o bê-á-bá da maldade.

Como estão hoje as mulheres curradas e como será o seu futuro após o estupro natalino é uma incógnita. Talvez, muitas delas, ao crerem que se trata apenas de mais um contratempo da vida, uma espécie de provação divina, ficarão razoavelmente conformadas, ao ponto de se manterem firmes com os teimosos companheiros em solo surinamês.

Outras serão acometidas por algum tipo de doença sexualmente transmissível, nada que não se resolva com pomadas e bons antibióticos, desde, é claro, que não se trate de uma AIDS.

Algumas, se não foram acudidas em tempo pelos profissionais de saúde daquele remoto país e seus protocolos de atendimento às vítimas de violência sexual, engravidarão dos seus agressores. Neste caso, talvez se faça justificável um aborto consentido pela justiça, desde que a fé, a crença religiosa e outros parâmetros subjetivos de foro íntimo não sejam impeditivos. Enfim, mais um “round” a ser lutado pela mulherada. Quem mandou nascer com útero?! 

Enquanto homens e mulheres ignaros perseguem ouro com suas bateias no meio da lama, eu cá continuo o meu garimpo solitário. Um dia, ainda descubro o mistério do viver. Desconfio: morreu, acabou. Ponto final. Só isso. Então será um momento único, um alívio indescritível, um contentamento “jamais sentido antes na história recente deste país” (e de outros rincões do planeta, Ilmo. Presidente). Tipo assim, como se eu fosse um garimpeiro e me deparasse com uma baita pepita de ouro nas mãos. Não seria mesmo uma obra do acaso, como a própria morte?!

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Comentários (1)

  • é necessario ler ainda q seja penoso demais.
    bjs.

    2 anos atrás por Guida


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