Como morrer bestamente (manual incompleto)
Pensa numa coisa triste, muito triste. Velório de criança. “Ninguém merece. Jamais presenciei uma situação tão cruel assim na minha vida”. Era o que o povo dizia, com os olhos inchados de tanto chorar. Lágrimas: frutos da saudade, do pavor ou da ignorância? Se é que ela existe, para onde vai a alma, afinal?
Existem poucos provérbios tão óbvios e ridículos quanto “para se morrer, basta estar vivo”. É o que muitas pessoas dizem, abobalhadas, umas para os outras, perante o enigmático fenômeno denominado morte. Elas se solidarizam para aplacar a dor e não perderem a fé. Sempre se corre um risco de desacreditar em Deus...
Porque, ainda que decorridos milênios de peleja no planeta, não nos acostumamos com a morte, o segundo maior mistério a ser desvendado pela humanidade. Como será Deus vem em primeiro lugar. Aliás, Deus, frente às tragédias, talvez se sinta numa situação deveras desconfortável...
Velório é um acontecimento social dos mais interessantes. Presta-se, dentre outras coisas, ao último adeus ao morto, um gesto de solidariedade aos entes queridos, um compromisso incômodo do qual não há como se esquivar. É fundamental preparar o corpo da criatura morta a fim de entregá-la ao pó, antes que deteriore e vaze entre os vivos.
Há assuntos supérfluos e até desrespeitosos nos funerais. Há quem consiga flertar, agendar encontros secretos, ou mesmo arquitetar falcatruas financeiras entre velas e coroas de flores. O odor das rosas, então, mescla-se ao enxofre. Aos que creem no maligno, trata-se de ofício do capeta, uma espécie de deboche, pura diversão defronte à dor dos homens.
A morte, por si só, na maioria das vezes, já representa um episódio demasiadamente ultrajante, repelente, pois desliga do cotidiano um ser ao qual se era afeiçoado. Existem, é claro, as mortes encomendadas, aquelas financiadas pela sociedade (penas capitais), e outras forjadas com muita violência, mas com a anuência do povo (linchamentos justiceiros).
Portanto, fenecer parece brincadeira de mau gosto, provocação, um escárnio com a ignorância humana. De outra forma, como compreender o acabamento quando ele nos surpreende em situações inusitadas, impensáveis, muitas vezes pífias, como estas listadas em seguida?
Dona Gertrudes morreu engasgada com moela de frango. Gente humilde e sem estudo, ninguém da família conhecia as manobras para desengasgar de Heimlich. Então, a morte lhes sorriu estorvando o almoço de domingo.
Lino não imaginava como era perigoso comer goiaba no pé. Tomou picada de maribondo, criatura tão minúscula quanto a sapiência humana. Resultado de anafilaxia, o grau maior das alergias, foi sufocado por avassalador edema de glote antes mesmo de alcançar a varanda de casa. Mais tarde o povo encontrou o corpo deitado no quintal. “Foi mal súbito”, alguém arriscou. “Deus quis assim”, concluíram.
Vitor, o pai da noiva, saiu da igreja primeiro que todo mundo. Precisava chegar à frente dos convidados, conferir se o salão estava em ordem, se o buffet estava montado pra receber os convidados. Pressa não combina com volante. Bateu o carro atrás de um caminhão de combustível. Padeceu carbonizado. Foi a pior lua-de-mel que já se teve notícia.
Chiquinho brincava com o irmão mais velho (crianças brincam como se a vida fosse pra sempre boa). Ambos fingiam ser fazendeiros ricos, entretidos com sabugos de milho e frutos de “lobeira” (que eles chamavam de boizinhos). A mãe lavava a roupa da família e entrou um instantinho só na cozinha pra conferir o feijão cozinhando na panela. Não demorou mais que três minutos. Foi tempo suficiente pro Chiquinho desequilibrar o corpo e cair de ponta dentro de um balde cheio d’água. Não pensava em ser peixe, mas o dono de um grande açude. Quanta fantasia nas cabeças destes meninos...
Verusca acordou atrasada. Mal engoliu o café da manhã. Saiu apressada pela garagem, ultimando recomendações para a Josefa, a empregada; penteando a cabeleira ainda molhada do banho. Subiu na camionete, deu a partida, acionou a marcha a ré e passou por cima de um obstáculo inédito. Sentiu um peso no estômago, um frio invadir a espinha. Prendeu o fôlego. Fechou os olhos. Mordeu os lábios inferiores. Pediu, implorou a Deus para que fosse Dara, o cadelinha da família. Não era. O caçula acordara mais cedo e nunca mais ela deixou de sonhar com o filho todo santo dia. Foi só a morte latindo.
Deuslene custou a engravidar. Foi preciso fazer promessa ao Divino Pai Eterno e pagar um tratamento médico que quase lhe custou os olhos da cara. Funcionou. Mesmo adentrando os 40, a gravidez prosseguiu sem atropelos. Nome do menino escolhido, enxoval preparado com afinco, o casal fez a mala e tocou pro hospital. Maternidade: local em que se nasce, certo?! A bolsa rompeu, as contrações principiaram a natural e mamífera judiação. Mas algo saiu errado e Deuslene morreu de parto, parecendo uma parturiente do século passado no meio do mato. Ninguém — nem a criança — escapuliu.





