Como estamos nos safando?

Já escrevi um monte sobre este assunto. Tem um bando de gente pedindo esmolas nos semáforos da cidade, mas ninguém faz nada. Nem o governo, nem a população.
Para se livrar do problema, muitos atiram suas moedas. Pagando o dízimo aos miseráveis acertam as contas com Deus, disfarçam o constrangimento e o remorso. Ases da hipocrisia, vamos tocando a vida. Anestesiados, bestificados pelo poder, os gestores públicos minimizam a situação, garantem que quase tudo vai bem, e continuam tapando sol com peneira, buracos do asfalto e aplicando tinta cal nos meio-fios.
Passo todos os dias, mais de uma vez, em determinada avenida da capital, onde menores de idade se revezam na mendicância, vinte e quatro horas por dia. Várias e várias noites eu já me deparei com o mesmo grupo atuando naquele “point”. Ainda que chova, a meninada não arreda o pé. Ao contrário, contam com o medo e a misericórdia dos motoristas e transeuntes que se desfazem dos trocados garantindo assim uma viagem muito mais confortável.
Outro dia, fiquei pasmo. Uma menina que aparentava treze ou catorze anos pedia esmolas num semáforo. Era tarde da noite e fiquei imaginando como aquela criatura era um prato cheio para um pedófilo, um aliciador de menores, e outros tipos de calhordas. Senti um gelo no estômago ao pressentir os riscos que aquela menina corria vadiando pela cidade.
Naquele dia não beijei o rosto da minha filha, como sempre faço quando chego tarde em casa e a pequena já caiu no sono. Quase sempre trabalhamos duro para nos sentirmos mais produtivos e vivos. Pagamos impostos milionários ao governo. Construímos patrimônios admiráveis pelos quais nossos descendentes hão de digladiar, abomináveis, enquanto apodrecemos no meio da terra.
Quantas crianças escapolem daquela vida miserável e se tornam cidadãos eu não saberia dizer. Imagino que a possibilidade de recuperação seja baixíssima. Coração nenhum resiste ao desprezo e ao desamor. Garantem as várias ONGs e institutos que estes meninos e meninas, quando não morrem precocemente nas praças e ruas, enveredam pelo alcoolismo, pelos vícios mais variados, e aderem à criminalidade, como recrutas. Um exército sem patente e uniforme guerreando contra o “status quo”.
Quando um meliante trucida um parente ou amigo da gente, carregado de frieza e crueldade, pouca gente compreende. Como é que um ser humano poderia ter feito tamanho mal ao semelhante?!
Somos tão humanos, tão hipócritas, tão simplistas. Apesar do sol nascer e se por diariamente, aprendemos quase nada na caminhada. Continuamos resolvendo os nossos graves dilemas com a mesma superficialidade e ingenuidade: atirando moedinhas e nos safando. Até que a casa caia.





