Coisas pra fazer (e deixar de fazer) em 2010
Mesmo sem saber se ainda estaremos respirando na próxima alvorada, pensamos no amanhã com uma convicção que beira a ingenuidade, mas nos mantêm na luta. Ainda que as metas traçadas no janeiro passado ainda estejam patinando no presente, inacabadas, nós ousamos estipular outras para o ano vindouro. Pessoas inteligentes, centradas, pragmáticas, as empresas sérias, sólidas e bem sucedidas fazem planejamentos estratégicos com inabalável auto-confiança.
Muitas vezes se diz: um ser humano plenamente realizado e sem ambições já está morto. É assim, por outro lado, que se sente um homem enterrado em melancolia, mergulhado na depressão, aprisionado ao passado, angustiado com o presente, desencantado com o futuro. Este merece a companhia utilíssima de quem se importa com a sua integridade física, a fim de se evitar uma tragédia anunciada.
Mesmo os desafortunados de longa data anseiam por melhores dias e fazem planos simplistas para o futuro, quando tirarem os pés da lama. É no lodaçal das crises que se testam os verdadeiros amigos. John Lennon cantou: “ninguém o ama quando você está por baixo”. Amigos incondicionais, portanto, são agulhas no palheiro, adversários à altura contra a miséria, a doença e a demência.
Sentado defronte a tela do computador faço força desumana para planejar 2010. Reparos na casa. Tintas nas paredes. Corrigir um antigo vazamento. Trocar a maçaneta da porta. Replantar o jardim.
Metas profissionais. Mudança de endereço. Um escritório novo num prédio comercial de um bairro nobre. Ao menos, uma sala com ar condicionado. Funcionários competentes e proativos ao meu dispor. Um computador com memória poderosa. Quem sabe, se o orçamento permitir, um notebook de última geração.
A escola das crianças. A cruel e dispendiosa lista de material didático. A natação, o balé, o curso de idiomas, o futebol, o limite do orçamento doméstico. Os impostos. Ah, os impostos... Tributos mais exorbitantes a cada ano e que muitas vezes são vilipendiados por crápulas travestidos como gestores públicos.
Uma viagem. Conhecer novos lugares. Cruzar o oceano. Pisar solos alienígenas. Conversar noutras línguas. Experimentar a culinária local. Ter um breve desarranjo intestinal. Sentir saudades do Brasil. Voltar.
Contudo, a minha tão prestimosa e elementar lista não passa da primeira linha. Escrevo assim: beijar, abraçar Aline, como nunca. Por mais que eu me empenhe, ainda que eu ligue o som do rádio no volume mais alto, nada dentro da minha ambição (e condição) humana parece mais desejável e essencial que abraçá-la, sentir o calor, a suavidade da pele, o vapor delicado e morno que vaza entre os dentes mais que brancos.
Com o mouse do computador, dou voltas sobre a mesa, sinto uma leve vertigem e clico no ícone “impressora”. Salta da sua garganta, como se tivesse vida própria, uma folha em branco com a missão solitária estipulada, um mandamento, um décimo primeiro mandamento: ver Aline gargalhando pela casa, como se a vida fosse uma diversão interminável.
Então desligo da parede o computador. Chove, e um raio poderá danificar definitivamente o equipamento, como fez a esta noite. Deitado na cama, cruelmente abandonado pelo sono, eu quase me arrisco numa reza, uma ladainha decorada na infância, fechando assim o meu dia com um ato bastante hipócrita, quase desesperado. Então penso nela de novo, na sua curta e contundente existência, do quanto ele faz feliz um monte de gente.
Penso no sofrimento dos seus pais, mas não encontro uma palavra que o traduza, nem no Aurélio, nem num livro de autoajuda, nem na letra de um fado tristonho. Faz quinze dias que o terrível acidente aconteceu. Desde então, seu corpo infantil peleja comatoso numa UTI onde outras tantas crianças (cada qual com seu drama particular) fazem aquilo a que menos estão vocacionadas: o silêncio.
Pequenos pacientes monitorados por equipamentos complexos concebidos pela inteligência do homem, aquele mesmo homem que planeja atentados terroristas e cria gases tóxicos, venenos infalíveis e bombas de destruição em massa. Manejando botões, cânulas, seringas e cateteres estão médicos, enfermeiras, fisioterapeutas e demais profissionais da saúde que nada mais fazem senão cuidar para que a chama não se apague, labor mais comovente que um ser humano pode cumprir, pura expressão da fraternidade.
Zelar dos corpos. Peitar a morte. Por mais que a ignorância, o desdém e a vaidade humana insistam, não há como negar: não tem dinheiro no mundo que pague a dedicação desta gente. Reconheço. E como não sei rezar, vou mentalizar somente coisas boas em suas vidas.
Então é só isto. No momento, não disponho de metas mais relevantes. Caros leitores, sinceramente, eu lhes desejo saúde plena em 2010!





