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POR EM 01/12/2009 ÀS 09:47 AM

Cidades da solidão

publicado em

Edifício Master“Há cidades que a gente jamais visita, exceto em momentos de desespero”. (Henry Miller). Toda janela é indiscreta, e olha para a vizinha com secreta inveja, mórbida ou lasciva curiosidade. Que sofrimento abrigará a outra, metida a besta, que ela não conheça? Toda cidade é frenética, para quem entra feito sonâmbulo na vertigem de seu ritmo intenso. Os prédios da selva de pedra olham-se uns aos outros com remorso e compaixão.

Todo prédio, milionário, remediado ou paupérrimo, é monstruoso, quando visto pelos olhos do medo.  Os que são habitados pelos tristes e infelizes das cidades sofrem de secreta solidão, e são vistos com desprezo pelos prédios elegantes. Prédios como o Master e o Irajá, no Rio de Janeiro, têm vergonha de si mesmos, e guardam, em torturado silêncio, palavras de compaixão, que jamais dirão uns aos outros.
           
No Edifício Master mora um ator cuja carreira foi encerrada por uma cena desastrada. Ao fazer uma cena em que morria depois de levar um tiro a queima roupa, na cabeça, por excesso de estampido, ficou surdo, na hora. Acabou ali sua carreira de 69 filmes feitos. Hoje só tem recordações de glória extinta e esquecida. Lá tem um senhor solitário que cantou com Frank Sinatra, e há 60 anos, todos os sábados, às 10 da manhã, coloca em último volume “my way”, e conta com o grande astro, sendo coberto de aplausos pelos vizinhos de plantão.

Quem dá mais pelos quadros da pintora claustrofóbica, que vê os olhos dos prédios olhando-a com ar de ameaça? Quem dá um real furado pelas poesias da poetisa que ninguém lerá, ao futuro breve, ou próximo? Quem daria um vintém pelo retorno à glória do técnico de futebol que entrou pelado, no Maracanã lotado? Todos os que posaram nus ficaram ricos... só ele ficou mais pobre do que antes, com saudades do sucesso que fez como técnico do Olaria Futebol Clube.

O edifício Master não é metido a besta, nem pode sê-lo. Em frente a ele tem um primo rico, que recebe as brisas da Avenida Atlântica, cheio de gente da classe média. Por acaso existirão, nos prédios elegantes (de um AP deslumbrante, por andar), solteironas que não se casaram por falta de tempo, ou por achar que homem dá muita mão de obra? Se o Raimundo drummondiano fosse morar em apartamento de luxo, com sala de café, de chá e de chocolate, seria uma rima pobre, não seria solução: “Mundo, mundo/vasto mundo/mais vasto é o meu coração”. 

O Master, prédio de apartamentos conjugados, em Copacabana, foi um momento do mundo, filmado pela câmera discreta de Eduardo Coutinho. O Irajá talvez fosse a cidade infernal, a ser objeto da vã curiosidade dos que se julgam a salvo do absurdo. Mas seria chover no molhado. Sendo talvez a cidade de gente descolada mais acusada de ser um escândalo ambulante, mais treinada na vertigem e no medo, talvez fosse muito visceral. A arte, antes de escravizar-se ao absurdo, também precisa focar a tristeza e a solidão dos que vivem nos padrões de “normalidade”.

O que o Master tem diferente, que o Irajá não possa ter? Apenas foi uma parte do corpo social do conflagrado balneário, onde o cineasta focou o olho eletrônico da câmera. Tudo para que possamos ir ao cinema como analistas da solidão alheia, ou como velhos voyeurs que no fundo somos. Ao sair do filme, suspiram com alívio, como os viciados em ler nos jornais as tragédias do mundo: “Ainda bem que não fui eu!”.

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