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POR EM 30/03/2009 ÀS 10:05 PM

Churrasco de criancinha

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É triste e trágico constatar que a tolerância zero em relação à injustiça e à violência de certos governos acaba revelando sua inabalável disposição para tolerar ( ou fingir não ver) os males que, em apoteóticas campanhas, prometeram combater. Seria esta frase um exercício de ironia ao estilo do implacável Swift? A resposta é não, por faltar a este escriba engenho e arte para imitar a grande arte do amargo mestre inglês. É feita de cortante sarcasmo e ironia a crônica em que, como forma de denunciar a miséria e a brutalidade do capitalismo nascente propõe dramaturgo que crianças sejam engordadas para serem vendidas nos açougues, como tenros e saborosos pedaços de carne, que seriam comprados pelos ricos, naturalmente. 

Tal se faria para impedir que as crianças pobres na Irlanda ficassem uma carga insuportável a seus pais, e para torná-las úteis ao público: considerando-se que a penúria crônica no interior da Irlanda está se agravando pelo nascimento de tantas e tantas crianças por ano; considerando-se que essas crianças não são utilizáveis na indústria nem na agricultura: “ uma criança de um ano constitui um alimento saboroso, de alto valor nutritivo, e bem digerível; os médicos mais avançados recomendam, embora só aos fregueses abastados, o uso de criança estofada, assada, cozida ou frita; serve-se também com fricassê ou ragu. O estabelecimento de matadouros para de crianças favoreceria a industrialização do país e a curto prazo a engorda promete circulação rápida do capital investido. 

Em sua feroz e cruel ironia desferida contra a ferocidade e a crueldade de um mundo em que os poderosos falam como deuses e agem como porcos, o dramaturgo lanceta o carnegão da hipocrisia social de seu tempo: “admito que as crianças, como alimento, serão um pouco caras; é claro que é comida só para latifundiários que, aliás, por terem comido os pais, têm direitos os mais legítimos pra comer também, os filhos. Para os camponeses pobres, os filhos tornam-se, desta maneira, propriedade que pode ser penhorada para pagar as dízimas ao latifundiário, mesmo que tudo possa ser seqüestrado pelo oficial de justiça. E nos anos por vir, diminuirá o desemprego. Penso apenas no bem-estar comum; pretendo aliviar a sorte dos pobres, sem esquecer o prazer dos ricos”.

Para Carpeaux, a ironia de Swift é resultado duma curiosidade de sadista, como de um anatomista que disseca as vísceras morais do corpo público, explicando a insuficiência dos órgãos pela corrupção total do organismo: “Existe entre nós uma classe de homens, formados na arte de provar, com verbalismos estupendos, que branco é preto e preto é branco, de modo que a cor do objeto depende do pagamento; afirmam que tudo o que já foi feito uma vez, por mais infame que seja, pode ser feito outra vez, e citam casos de precedência como autoridades, para justificar as opiniões mais injustas, que se chamam sentenças, quer dizer, opiniões arbitrárias de certa classe de advogados chamados juízes. Para não serem importunados nos seus negócios, esses homens inventaram uma língua, na qual se embrulham a ponto de não entender a si próprios; levam 30 anos para decidir se o terreno que os meus avós me legaram pertence a mim ou a um alheio que mora a trezentas milhas da cidade”.   

P.S. Qualquer semelhança com o Febeapá (Festival de Besteiras que se Abate sobre o País) de certas colendas autoridades da nossa justiça, em todos os níveis, não é mera coincidência. Como explicar que sentenças desencontradas sejam “exaradas” (argh!) por diferentes administradores da Justiça, a partir da mesma e igual realidade processual? Não contentes em agir como se estivessem a encenar o samba do crioulo doido, tais eminências pardas, do conforto refrigerado de seus gabinetes assistidos por exércitos de garçons, danam a travar duelos verbais entre si, em linguagem cifrada, cujo sentido só alcançam os que atuam na área. Também no que tange às políticas populistas eleitoreiras, em que o curral eleitoral é garantido a golpes de canetadas de neocínico oportunismo, o que dá pra rir dá pra chorar. Vivesse em nossos dias, o sarcástico e implacável Swift teria muitos motivos para escrever outros textos de feroz ironia, como este, em que recomenda que os ricos se empanturrem, em seus churrascos pantagruélicos, com a carne macia das criancinhas pobres. 
 

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