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POR EM 14/02/2010 ÀS 11:32 AM

Caminhando (e mijando) e seguindo a canção...

publicado em

As águas vão rolar. Cerveja e cachaça na garganta. Mijos disfarçados pelas sarjetas: o toalete é mesmo ali, nas ruas, esquinas e becos do Brasil. Quem se importa? Carnaval é assim mesmo, gente. Sórdida tolerância. Farra. Alegria. Samba no pé. Urgência miccional e muito cheiro de amônia quando o sol aparece. Ai, meu Deus, por que me sinto tão por fora nas festas de Momo?!

Teoricamente, o feriado de carnaval começa hoje (esta crônica foi escrita no sábado, dia 13), mas não se fala noutra coisa nos últimos quinze dias. Mesmo com o ínfimo tempo desperdiçado com a televisão, acompanhando notícias nos telejornais, constato que o assunto domina a mídia. Será que o carnaval faz bem pro PIB e eu não sabia?

Confesso: eu não suporto tanta alegria assim. Ou estou ficando velho e intolerante (curso natural da existência?), ou acometido por algum tipo de surto depressivo. Se tivesse que escolher uma fantasia para sair pulando desembestado atrás de um trio elétrico, escolheria aquela do flagelado haitiano, do paulistano naufragado, ou do político corrupto com cédulas amontoadas nas meias e cueca.

Detalhe de última hora: o Arruda, apesar do sortilégio do nome, não teve sorte, em absoluto, e vai assistir ao desfile das escolas de samba pela TV de um quartinho na Polícia Federal. Se os advogados não emplacarem um “habeas corpus”, só sai do confinamento depois do feriadão.

Empresários, investidores e entusiastas garantem que se trata da maior festa do planeta. É fato que turistas estrangeiros desembarcam em solo brasileiro para curtir a folia e fazer sexo com nossas adolescentes desinibidas, quase sempre prostituídas. É tanta fantasia e euforia da parte dos gringos que até meninas pré-púberes são requisitadas pelos marmanjos pedófilos.

Tá certo, eu reconheço: muita gente vem de fora só pra apreciar o luxo das escolas de samba e ser assaltado no Rio de Janeiro. Não vamos esculhambar com a festa. Carnaval é patrimônio brasileiro, assim como a fedentina no passeio público e a gonorréia na quarta-feira de cinzas. A não ser que algum folião se dobre, ainda que embriagado, às criativas campanhas publicitárias oficiais em que as personagens conversam com camisinhas. Não é mesmo uma graça?

A mídia não repercute os percalços carnavalescos com a mesma volúpia com que mostra mulatas seminuas e celebridades recauchutadas pelos hábeis e endinheirados cirurgiões plásticos. Durante a farra coletiva que domina o país, a incidência de acidentes automobilísticos, por exemplo, dispara, por causa da precariedade das estradas, da sinalização deficiente, e dos motoristas irresponsáveis, muitos deles bebuns embalados pela fiscalização precária e a certeza da impunidade.

Pra não empatar a festa, ninguém alardeia, mas os hospitais das grandes cidades turísticas sopitam de gente suplicando adjutório médico. Grande parte dos pacientes — que as câmeras televisivas negligenciam focar — é arrebatada pelo abuso de bebida alcoólica e das drogas ilícitas. Velhaca, a mídia refuta as atrocidades só na quarta-feira de cinzas, já no rescaldo da folia, quando então, finalmente, o ano começa. Próximo assunto: Declaração de Imposto de Renda.

Há mais alguém por aí que também se empola com tanta diversão desmedida?! Às vezes, tem-se a impressão que o mundo para durante o carnaval. Sou um índio de um filme de John Wayne, portanto, não torçam por mim (mas também não me fuzilem). Quisera eu não levasse a vida assim tão a sério, pois isto faz com que me sinta um ser humano bem amargo.

Desisto. Se a cidade para, eu paro junto. Então durmo além da conta, me entrego aos livros, filmes e música. Passeio pela minha cidade vazia (afinal, o povo migrou para outros destinos) e consigo sentir algum prazer em dirigir o meu carro sem penar em congestionamentos. Até os pedintes de semáforos escafederam. Estariam eles também entregues ao samba ou ao vergonhoso abandono, oficiando em delito?

Sinto-me inoportuno ao escrever sobre o carnaval com tamanha amargura. Fazer o quê? Se tenho que consentir tanta alegria explícita dos foliões, por que eles não haverão de tolerar a minha chatice? Brasileiro não é um povo alegre, solidário e temente a Deus? Pois então. Preciso de socorro. Preciso que me ajudem a entender por que é que, de repente, a vida parece assim tão divertida quanto dizem?

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Comentários (2)

  • EBERTH VÊNCIO, por mim o carnaval teria outro nome: "Festa da Gonorréia". Não existe nada mais nojento e ofensivo à inteligência humana do que viver quatro dias como sei lá o que... não tem definição. Nem os animais agem assim. Nojo e repulsa. Dá-le Gonorréia!
    Quem concordar comigo, por favor, me add no msn: aline.aline80@hotmail.com (Temos que preservar a nossa espécie, por isso me add).

    2 anos atrás por Aline
  • Parabéns pelo post. Conseguiu traduzir em palavras tudo o que penso sobre o carnaval.

    2 anos atrás por Shidartha


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