Bardos do nada
Há poetinhas e poetastros que consideram criação literária o esvaziar da lata de lixo de suas mentes turbulentas e egóicas. De um vômito emocional contínuo fazem esgoto a céu aberto, e com sacrifício de muitas árvores – e pensam que são apreciados por todos. A ponto de não serem noticiadas as nonadas que fazem lhe soam como catástrofe, escandalosa injustiça, com dimensões de calamidade pública. Oh! Dor! Ó luta!” Se ao menos se contentassem em escutar os elogios de encomenda!
Estes vivem a louvar a si mesmos, em vitupério implacável, delirante e contumaz. Ezra Pound disse-o, em outros termos: “A mera anotação de uma dor de barriga e o esvaziar-se da lata de lixo não são suficientes. Qualquer idiota pode ser espontâneo”. Eu acrescento: a lata de lixo a que tantos poetastros e poetinhas de metrópole ou de província recorrem, tanto pode ser a memória quanto os autos da História – onde, em se tratando da condição humana, há mais coisas a deplorar do que a louvar.
Para Ezra Poud, um homem querendo escrever o melhor poema poderia fazê-lo em uma fazenda solitária. Em nosso país e em nossos dias, talvez o aprendiz de poeta tenha de viver em uma metrópole agitada e trepidante, correndo o risco de ser encontrado por uma bala perdida – onde em vez de escrever o poema da sua vida, possa ser levado a antecipar a hora da sua morte. Pois que cidades são como as palavras – as que mais nos fascinam, por serem desconhecidas, podem ser as mais perigosas. Ou, como nos ensinou o gramático Pedro Luft, de quem Lia ficou viúva: “As palavras são como as prostitutas. Não mexa com as desconhecidas, que elas são perigosas e traiçoeiras”. Ou, no dizer de Clarice Lispector: “Escrever é duro como lascar pedras”.
A ignorância natural não é irônica, não se oculta sob sarcasmos, nem é nefasta ou molesta como o é a ignorância cultivada das pessoas que se empavonam e se orgulham de serem cultas. Adornadas com o brilho de purpurina da cultura inútil, são homens e mulheres de segunda mão, e projetam-se como celebridades de verão na fogueira das vaidades. A muitos destes, nada ilumina seu estro, a não ser a empáfia mumificada de serem incansáveis fazedores de versos – que têm como tema eterno seus detritos mentais.
“A arte de nosso tempo espelha o vazio espiritual de seus artífices”. Assim escreveu o crítico literário Jonas Lopes, no artigo “A sagrada gramática da arte”, publicado no suplemento “Opção Cultural”. Concordo com a afirmação, em todos os termos. Pois é abissal o vazio da arte e da literatura que se produz e publica no Brasil – como de resto em todo o mundo chamado “culto” e “civilizado”.
A gramática expositiva do nada não pode ser arte e muito menos criação que valha a pena ser vivenciada. No máximo, tem surgido como besteirol de ocasião – como o é muita besteira premiada que por aí circula, bem criticada e aplaudida, que tem a mesma perenidade e verdade artística que pode ter o urinol de Duchamp. Teremos caído no absurdo, quando arte e artistas fizerem um pacto com o escândalo, o grotesco e o escárnio.






