As solidões do gesto
... mas há uma solidão iluminante e reveladora - a solidão de quem encontrou, no desespero, a esperança - a solidão solidária de quem saiu ao meio dia, "caminhando contra o vento, sem lenço e sem documento/ num sol de quase dezembro/ e ao parar em bancar de revistas vê o sol se repartindo em crimes/ espaçonaves/ guerrilhas/ em caras de presidentes/ em Cardinales bonitas/ em grandes beijos de amor/". E ao ver a luz incendiada da tarde sobre os rios de aço do tráfego da cidade vê sentido, alegria e esperança na face metálica do absurdo.
Sempre existirá a solidão dos moribundos no leito dos hospitais - e a selvagem alegria do que recebeu alta do último hospital do medo. No leito de gemidos há sempre dois anjos por perto (um de carne e osso, e um outro, de triste olhar, e de asas quebradas, vindo do escuro céu do medo). E há sempre um amigo, um irmão, uma mãe, um filho um amigo inseparável. E as mais longas noites da alma são as noites hospitalares em que se doentes e acompanhantes se debatem entre a esperança e o desespero.
E sempre há sempre um bar barulhento, e nele o coro dos contentes canta hosanas para alguém que faz anos. Enquanto uns se preparam para a Grande Viagem bardos bêbados brindam à saúde dos convivas. Nada mais justo: nada é tudo, tudo é nada: para o bacilo de kock um pulmão arruinado é a suprema maravilha. Era noite de dezembro - e minha mãe ia morrendo. Nunca mais esquecerei o que perdi para sempre. E isto dói - doerá eternamente.
A solidão dos que não sobreviveram a um mau encontro no casamento, e a solidão, mais terrível ainda, dos que não sobreviveram a um descasamento infortunado e turbulento. Pois certos matrimônios são como tumbas - guardam mortes antigas. Para dissecar seu conteúdo mortal e mortífero, seriam necessários não psicanalistas ou psicólogos, e sim apelar para os arqueólogos.
A insuportável solidão dos que nada mais esperam do vão viver. A solidão dos que já navegam, com suas almas mortas, no rio dos dias - e em seus olhos mortiços já não brilham rostos, ruas, restos de luz, quintais da infância - que o tempo e a vida carregaram para sempre. A solidão do que esqueceu de lembrar - de quem cansou de esperar o que não virá mais, pois é lembrança morta de parto, matada a pauladas, em crimes puerperais. A perda vital, que é seguir vivendo depois de perder todos os motivos.
A melancólica comunhão dos sobreviventes que se reúnem para comemorar cinqüenta anos de qualquer efeméride. Tudo, no banquete de sobreviventes lembra (em que suco de laranja é a bebida mais forte) prenúncios de despedida. O tímido orgulho dos que são da "velha guarda" das profissões liberais. Como cartas posta fora do baralho (expulsos do mercado pela selvagem competição capitalista, e pelo tolo orgulho dos que se julgam donos da vida só porque são jovens), reúnem-se, nas festas da memória, jubileus de saudosas lembranças, em que recordam os dias de glória e juventude, que se foram para sempre.
A solidão amarga, nascida das sombras da repressão religiosa das que ficaram titia, e sublimam as delícias de Eros, que sufocaram em si (ou alguma força autoritária e vazia sufocou e matou). A áspera e perigosa solidão dos que muito lutaram para "subir na vida" e quando, ao cabo de desesperados esforços, conseguem subir em um tijolo político, representado por um "carguinho" de merda (ou de merla) nas engrenagens do poder, transformam-se em implacáveis déspotas e tiranos, humilhando e torturando os que já são humildes e torturados pela vida. E é preciso "pedir piedade, senhor, piedade, para essa gente careta e covarde" que no hotel do tempo somos apenas passantes e nada do brilho falso dos objetos haverá de reluzir quando estivermos face a face com a Luz Essencial.
A constrangida solidão dos que foram apeados dos cumes da escada da mobilidade social - e tendo feito parte da sorridente grei dos "bens de vida", hoje empurram carrinhos nos camelódromos da vida. Estes ocultam os rostos quando encontram gente conhecida dos velhos e bons tempos, em que andavam pela vida a passos largos, e de cabeça erguida. A solidão conformada que existe, na massacrada auto-estima, pisoteada ano a ano, dia a dia.
A humildade dos que pedem empréstimos a parentes distantes - a humildade do parente pobre, perante as pompas do primo rico. No alumbrado dizer poético do poeta José Godoy Garcia, sobre os deslocados, os humilhados e os recalcados que vivem a ocultar-se da luz, como se cucarachas fossem desde que nasceram: "A humildade das prostitutas que vão ao matinê, sentam-se ao lado de mocinhas, e sentem-se imundas".
"A minha amiga de olhos tristes: eu via nela uma inteligência romântica, uma suavidade distante, um vago encantamento que me atraía por não compreendê-lo. Suave, distante, quase transparente: uma imagem. Eu passei sem ver que por trás daqueles olhos havia uma vida interior intensa, e machucada, uma imensa carga de emoções esperando um gesto. O gesto que não foi feito".
A solidão dos que gastaram a vida escondendo a sete chaves os gestos da entrega. A solidão dos que fazem do viver um lento morrer homeopático. Pois temos bocas para beijar, braços para o abraço, mãos para dar adeus, e lágrimas para chorar. Os gestos são como frutos - devemos colher, doar e receber - enquanto a vida vibrar nos frutos e em nós. Os gestos devem ser feitos, não podemos economizá-los. E se isto implica em risco, então é preciso assumir, no exercício do perigo, a "lucidez do compromisso".





