As cores de Frida
No último dia 6 de julho, aniversário da pintora mexicana Frida Kahlo (1907-1954), fiquei a pensar em sua maneira tão particular de pintar (e aí, cabe o verbo nos dois sentidos) a si própria perante os outros. Trazer a tona tudo aquilo que se esconde atrás de nossa carne, dar formato aos nossos traços visíveis, unir tudo o que somos em um instante é um exercício diário que fazemos para nos mostrar. Frida, como ser humano, se fez conhecer em seu cotidiano, porém, não da maneira como esperamos. Além de se mostrar aos outros, ela se apresentou a si mesma.
Não falo das características de toda a sua obra surrealista — apesar de haver um pouco de nós em tudo aquilo que construímos —, mas sim, da força de seus auto-retratos; uma força surpreendente, que bate e que afaga o olhar do observador. Que pensamentos passavam pela mente de Frida enquanto os pintava? Vítima de poliomielite, de acidente de trânsito e de inúmeras conturbações na vítima pessoal, seus quadros eram um retrato de tudo aquilo que a rodeava. Chegou a declarar uma vez: “Pensavam que eu fosse surrealista, mas eu não era. Nunca pintei sonhos. Pintava a minha própria realidade.”
E dessa realidade saíram auto-retratos em que a pintora aparece duplicada com o coração a mostra (“As Duas Fridas” - 1939), ou nua em uma cama de hospital ligada aos fetos que havia perdido (“Hospital Henry Ford ” - 1932). Aparece ainda em um quadro com o corpo repleto de pregos enquanto sua coluna artificial de ferros é exposta (“A Coluna Partida” - 1944) e em outro tem a cabeça em um corpo de veado atingido por inúmeras flechas em um bosque qualquer (“O Veado Ferido” - 1946), além de haver se representado mais simploriamente outra vezes, em que apenas exibe o seu rosto de mulher em um de seus vestidos habituais. Uma de suas obras mais famosas é o quadro “Auto-Retrato Em Um Vestido de Veludo”, de 1926, quando ainda era iniciante e um tanto quanto “contida” em sua maneira de se representar, embora a pintura já apresentasse indícios de suas pinceladas marcantes, ao transparecer pensamentos em seus olhos.
Apesar de haver retratado também familiares, amigos, e outros mais, nada pode ser tão rico em detalhes quanto à reflexão sobre si mesma. Frida coloca-se nua corporalmente e espiritualmente em seus quadros, como a personagem central de uma confusa história. A impressão que tenho é que não existem inibições em seu ser, pelo menos, não as que se referem a se conter. Tudo é forte, tudo é mágico, tudo é cruel... Há muito de um México no início do século XX, de seu povo e de sua cultura, apesar do sangue alemão de seu pai. Os cenários de suas “personagens-ela-mesma” variam desde lugares comuns (como o seu próprio quarto) até criações em céus tempestuosos ou matas exóticas.
Mas como qualquer pessoa que goste de se explicar, Frida também teve um diário pessoal (publicado no Brasil pela José Olympio Editora). Nele, uma vez escreveu, quando mal conseguia andar: “Pés, para que te quero, se tenho asas para voar” (1953). E voou para longe, em 1954, quando foi encontrada morta, sem nos deixar saber se as asas que a levaram foram postas por ela mesma (por uma suposta overdose) ou por outro alguém (envenenamento).





