As aparências enganam
De tão velho, este ditado, já não pensamos mais nele. Mas me parece que não é fora de propósito vez por outra relembrar essas verdades da sabedoria popular.
Quem não se lembra do Collor? Era o jovem bem falante, trajando ternos provavelmente importados, que agradava, por sua aparência saudável e elegante, à maioria do eleitorado brasileiro. Gostamos muito de saúde, mas muito mais de sua aparência. A eleição do Collor deu no que deu, no que todo mundo sabe.
Nas eleições seguintes, algum marqueteiro experto (assim mesmo, com x) lembrando-se do resultado da eleição anterior, deu um banho de loja no candidato Lula, que aproveitou para tomar outros banhos, como o banho neoliberal. E deu no que deu. O povo gosta de um terno bem cortado, de uma gravata com aparência de cara.
Sei de muita gente que escolhe os produtos a comprar pela embalagem. Os semiólogos explicam o fenômeno afirmando que o ato da compra não é apenas o ato de aquisição de algum bem. Muito longe disso. Quando se faz a compra de um objeto, o mais importante não é o valor de uso que ele possa ter, mas o status social que ele garante.
Vocês já viram como jovens da classe média não usam roupa cuja marca não esteja na moda?
Meu falecido pai, um homem antigo, andou muito tempo por aí dizendo que o importante, o mais importante, não é o aspecto exterior, mas as qualidades de caráter, isto é, o que é invisível porque está escondido por dentro do ser humano.
Pode ser que meu velho tivesse razão, mas os semiólogos dizem que tudo é linguagem e já ouvi alguns deles afirmando que o modo de se vestir revela muito do ser vestido. Não duvido.
O professor Edward Lopes, meu amigo e orgulho da semiologia nacional, conta uma anedota que tem Manuel Bandeira como personagem central. Nosso poeta, eleito para a Academia Brasileira de Letras, vestiu-se com o fardão engalanado, para tomar posse de sua cadeira, e tomou um táxi, pois ele nunca dirigiu. No caminho, o taxista examinava-o pelo retrovisor, com olhos espantados, de quem não está acreditando no que vê. Na avenida Brasil, o carro encontrou uma sinaleira (estamos no Rio) fechada. O taxista aproveitou a parada obrigatória e virou-se rapidamente para trás. Muito solene e respeitoso ele perguntou:
— Sois rei?
Aquele taxista sabia muito: ele transportava não um rei, mas um dos príncipes da poesia brasileira.





