Arte da mentira
Quando era primeiro ministro de Portugal Antônio Guterres numa entrevista que li no jornal “Público” de Lisboa veio com esta pérola abominável:
“A política é a arte de não dizer a verdade”
Fiquei paralisado e indignado ao ler isto.
E não me consta que ninguém disse nada sobre esta barbaridade, pelo contrário, a impressão que dá é que todos os políticos brasileiros a leram, concordam com ela e a praticam intensamente.
Só pra me ater aos vereadores e deputados goianos, mais próximos de nós, é difícil extrair das palavras, declarações e comportamentos deles qualquer vestígio remoto de verdade, agem como se estivessem, e estão, acostumados à mentira como a grande arte que permeia a política.
Há um vereador líder que funciona como o exemplo-capa-de-livro e que a cada entrevista na TV olha fixamente dentro do olho da câmera acreditando passar firmeza e credibilidade, mas conseguindo ser apenas captado como um grande mentiroso, dissimulado, que teve um papel primordial no episódio da invenção de mais dois meses nos salários dos vereadores de Goiânia. Voltou atrás e desmentiu tudo, como qualquer bom mentiroso sabe fazer.
Agora um pastor vereador quer de novo mais três salários que, diz ele, lhes é de direito.
Como é evangélico deve acreditar que é direito divino. Claro que nenhum deles está sozinho na sua crença de que política é a arte de não dizer a verdade: há um bonitão que jura que é o escolhido dos deuses por ter sido dos mais bem votados; um outro que está há anos encarrapitado no cargo e cuja arrogância e onipotência conheço muito bem.
Este, em 2000, atuou durante a instalação da lei municipal de cultura tentando emplacar fora das normas alguns artistas sertanejos seus protegidos, furando fila pra falar com secretários, usando e abusando do seu direito de “autoridade”. Quando é pego numa armadilha faz cara de bebê-chorão e desova frases burras de efeito duvidoso.
Um outro que tem cargo de presidente, tem cara e atitudes típicas de menino-criado-com-avó e faz visível e risível esforço pra parecer inteligente. Todos sabem como ele chegou a ocupar aquele cargo há alguns anos.
Claro que ninguém que pensa nesse Estado se sente representado por nenhum desses tipos, ainda há pessoas que acreditam na verdade, na honestidade, na inteligência.
Na assembléia não é nada diferente, apenas pensam ter mais poder e o usam da maneira mais carreirista possível: querem e tentam se dar bem seguindo a lei de Gérson. Nenhuma das duas casas está preocupada em legislar e atuar a favor da população que elegeu seus componentes. Agem como predestinados que foram colocados ali por merecimento, competência, brilhantismo intelectual e político.
É mentira, nós sabemos que quase todos estão lá por conta do dinheiro que investiram na campanha ou porque aproveitaram do prestígio de outros políticos como maridos, pais, pastores mais velhos que emprestaram seus nomes às suas candidaturas.
São seguidores das capitanias hereditárias onde o poder passa de parente pra parente. Basta observar o numero de filhos jovens que alguns deles nos impõem e que posam como messias aos 22 anos.
Ou porque, simplesmente, mentiram mesmo e conseguiram enganar a muitos. Claro, há exceções, felizmente, poucas, mas há.
Um deputado, meu ex-amigo, ex-comunicador antes de ser deputado, era pobre, assalariado numa empresa de comunicação, tinha um carrinho velho, pagava aluguel num dois-quartos-e-sala bem distante da cidade e gostava de dizer que um dia sua voz o levaria onde queria. Pois não é que ele estava mesmo certo?! Chegou onde queria e hoje faz um verdadeiro milagre mensal com aquele pobre salário de deputado: comprou uma bela casa num setor nobre, anda de carro importado, vai ser dono de uma fazendinha onde criará bois, terá filha estudando no exterior – tudo conseguido com a enganação que a sua bela voz transmite ao público. Não se trata de competência, mas de oportunismo, já que todos sabemos que radialistas e apresentadores de televisão têm exposição suficiente pra pleitearem cargos públicos à custa dos seus ouvintes.
Afinal, muitos usam do mesmo recurso, angariam votos oferecendo prêmios pobrinhos a pessoas pobres num pobre programa de TV.
Estamos mal, leitor.
São esses pobres de espírito, grandes maiorias no País, facilmente conquistadas com pequenos prêmios que elegem os ignorantes que dizem nos representar.
Talvez tenhamos de recorrer à mentira para nos ajudar a fingir que essas situações mesquinhas e medíocres não estão acontecendo.
Ou reagir concretamente e com indignação conforme fazem pessoas civilizadas em todos os países civilizados do mundo.
Pena que no Brasil gente civilizada ou é intelectual sem ação, ou é acomodada ou é medrosa e sem atitude ou, o que é mais comum, as três coisas ao mesmo tempo -são esses que avalizam o status quo político no Brasil.





