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POR EM 23/05/2009 ÀS 12:58 PM

Arrastavam-se móveis

publicado em

Quando acordei, hoje cedo, tentei por instantes não existir, porque estava com os olhos apagados e a colcha tinha escorregado para os pés. Acordei no meio de um sono duro e seco, com a sensação bem nítida de que houvera uma invasão. Por isso puxei a colcha até cobrir a cabeça. A primeira impressão que tive da vida, ao acordar, foi a de que se arrastavam móveis dentro de meus ouvidos.

Quando acordei.

Virado para a parede, tentava esconder-me do barulho áspero de móveis que se arrastavam, mas eles se arrastavam dentro de meus ouvidos, cobertos comigo debaixo da colcha, onde sufocávamos sem nenhum conforto. Num movimento brusco, empurrei a colcha de volta para os pés e me expus àqueles ruídos que me atrapalharam o sono, justamente em sua melhor parte. Minha testa estava levemente úmida quando me vi livre da colcha. As mãos também, as duas.

Mas então eram mesmo móveis que se arrastavam? Com a testa enrugada finalmente descobri que os móveis se arrastavam na sala. Era de lá que me chegavam aquelas vozes abafadas e uma tosse velha, sem catarro.

Sempre tive medo de acordar porque quem abre os olhos torna tudo definitivo, com todas as mudanças que a noite não viu. Como sair da cama, de manhã, e fingir que o mundo é o mesmo, que sei muito bem onde fica o banheiro e aquele cabo verde é de minha escova? Como abrir os olhos e não perceber que durante o sono penetrou água pelas fissuras e que o musgo em fina camada cobriu minha pele? Por isso levanto tarde. E de mau humor.

Hoje, entretanto, ah, hoje fui acordado pelos móveis que se arrastavam dentro de meus ouvidos. Até que os empurrei para a sala, de onde me chegavam aquelas vozes abafadas e uma tosse velha, sem catarro. Só então, quando já não havia mais possibilidade nenhuma de continuar fingindo que nada tinha mudado, foi que me levantei e fui abrir a porta do quarto. A claridade me vestiu de cueca e camiseta, aumentando o ruído dos móveis e das vozes que se arrastavam, secas. Não senti necessidade de resistir, por isso voltei para a cama.

Acordar é sempre uma aventura imprevisível.

Na cama costumo envolver-me com meus segredos, pois é um lugar vedado a quaisquer aproximações. É ali que refaço todos os atalhos, me procuro, quando pareço extraviado, ou me perco, por excesso de confiança, enfim, é sobre a cama que reconheço cada uma das dobras e rugas dos panos que me envolvem com carícias. Nos limites da cama é que exerço diariamente minha soberania, aquela que a ninguém jamais transfiro.

Já não parecia mais necessário esconder-me debaixo da colcha, por isso tinha deixado a porta aberta. Por onde. O ruído de móveis que se arrastavam também, pela porta. E as vozes, pisadas secas de botinas velhas, cada vez com maior nitidez. Quando vi passando em frente à porta do quarto dois homens bem músculos e de sorrisos que se escondiam por trás de barbas e bigodes, entendi o sentido do ruído, sua mensagem decifrada.

Para não chamar a atenção, tranquei-me imóvel sobre a cama. Teso. Meus ruídos sutis, eu mesmo os absorvia, não permitindo que me denunciassem. A respiração tornou-se tão leve que me pareceu possível flutuar. Se a borboleta, eu pensei, pesa menos do que sua cor, por que não posso ficar suspenso em minha respiração? E assim fiquei. Apenas os olhos se moviam porque o ruído que eles fazem ao se virarem para os lados nem mesmo as formigas, em geral tão concentradas, conseguem ouvir.

Não, não foi tenso que fiquei. Apenas imóvel. Porque o medo ainda não era tão grande que impedisse o controle sobre meu corpo. Imóvel apenas, com o corpo solto sobre a cama. Um corpo em repouso horizontal. Alguma coisa se quebrou na sala, um vaso, talvez, que se transformou em riso. Pois nem isso me fez repuxar um único gesto.

No início pensei que fosse o medo a inflar meu peito, mas logo percebi que aquilo era náusea, um sentimento materializado por certo aperto no estômago, como se uma bolota meio quente tentasse alcançar minha garganta. Isso eu descobri ao mesmo tempo em que senti minhas mãos úmidas nas palmas e o mundo oscilando suavemente. O pior mal-estar é nunca saber para que lado ele penderá no instante seguinte. O mundo nunca me parecera, como naquele momento, um barco inseguro, descontrolado. Minha boca encheu-se de uma saliva grossa, salobra, e tive de a engolir para evitar algum movimento.

Duas cabeças muito próximas uma da outra atravancaram a porta. Seus olhos apertaram-se avaliando a intensidade da sombra do quarto ao mesmo tempo em que forçavam passagem para um exame mais detido. Um dos homens, com passo firme, desenhou uma linha reta até a janela, que escancarou para espantar os resíduos da noite que ainda me envolviam. Eles não falavam, mas notei que seus olhares trocavam informações. O que entrou primeiro no quarto espalmou a mão na parede do guarda-roupa e o empurrou sem muito esforço, medindo seu peso. Fez um gesto rápido de sacudir a cabeça com as pálpebras descidas como um sono. Era fácil, agora, adivinhar-lhes o significado dos gestos. Prendi a respiração, surpreso com o movimento seguinte, que consegui prever: o segundo homem contornou o guarda-roupa pela frente, enfiou um saco enrolado por baixo de seus pés e em poucos segundos o móvel desaparecia na direção da sala.

A percepção de que o quarto tinha aumentado não me trouxe alívio algum. Tive até a impressão de que o espaço maior, vago, pesava sobre mim. E era uma impressão muito nítida, em que supunha ver o movimento de partículas girando a esmo numa faixa tímida de sol que entrava pela janela. Eram átomos que ainda não orbitavam organizados, o mundo em formação. Que mergulho poderia ser aquele, do qual voltava sem nada nas mãos ou na mente? Preferia o quarto em seu tamanho primitivo.

Minutos depois, os homens entraram novamente no quarto e pararam interceptando com as costas a faixa tímida de sol que descia oblíqua. De mãos nos bolsos me olharam algum tempo e trocaram duas, três palavras num timbre excessivamente grave para que eu pudesse entender. O mais alto sacudiu a cabeça, confirmando, e os dois passaram suas cordas de saco enrolado por baixo da cômoda.

No quarto fiquei eu e minha cama, com a colcha me cobrindo uma das pernas.

No início tentei concentrar-me em alguma passagem antiga, episódio que não me comprometesse, mas não me vinha uma só imagem que não estivesse fragmentada pela rapidez. Era impossível reter qualquer pensamento por mais que uns poucos segundos. Então desisti e me deixei ficar aqui deitado, quedo e sonolento, apaziguado pela certeza de que eles jamais voltarão.
 

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