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POR EM 17/07/2010 ÀS 09:01 AM

Amenidades

publicado em

Grandes polêmicas fizeram o mundo caminhar, evoluir e quem quiser saber mais é só ler a “História das Civilizações”. Polêmicas levam o homem a pensar, a ponderar, a desenvolver-se criticamente, a libertar-se dos comportamentos que as grandes massas de carneirinhos obedientes estabelecem como regra. Só as polêmicas são atraentes. O resto é corriqueiro e tedioso, mesmo quando são questões que propõem algo de novo pra se matutar e ângulos novos de um mesmo tema.

Mas polêmicas hoje são evitadas de qualquer maneira. Primeiro, pelos meios de comunicação que são os primeiros formadores de opinião: TVs, jornais, revistas, rádio —  todos eles têm pânico de assuntos polêmicos que, acreditam, podem trazer-lhes problemas jurídicos. Só amenidades são liberadas e incentivadas. Claro, o resultado disso é que quase todos os meios de comunicação são iguais, tediosos, repetitivos, acomodados, sonolentos, evidentemente medrosos nos cuidados com que jornalistas e apresentadores são orientados no que escrevem e falam.

Agora se controlam até os artigos com opiniões pessoais que antes eram respeitadas e das quais os jornais se eximiam naturalmente de responsabilidade, mas publicavam. Só o óbvio nos debates previsíveis gravados e editados que são revelados às massas nas TVs e, quando são debates ao vivo, estabelecem-se tantas regras e normas de censura que o que um fala é praticamente igual ao que os outros dizem.

Ponderemos, leitor, o mundo inteiro anda um tédio só: tudo é ameno, tudo é filtrado, tudo passa pelo crivo de homens-carneiros-poderosos que são os que decidem o que vai ou não vai ser dito pelo que o público lê, vê e ouve. As revistas e programas de amenidades são os preferidos porque os que os leem e assistem têm a garantia de que nada vai surpreender ou provocar-lhes pensamentos e dilemas fora do padrão a que estão acostumados. Não há mais paixão nos textos, nada surpreende — é tudo igual.

Se pensarmos na área política vai ser fácil comprovar o dito acima: são sempre os mesmos políticos que ocupam as páginas e TVs há mais de 10, 20 ou 30 anos. Os mesmos homens vão envelhecendo diante de nossos olhos sem que se perceba a contribuição deles para melhorar o mundo. Que gente triste!

Homenzinhos e mulherzinhas comuns, despreparados, convencionais, ignorantes. Alguns jamais mudam seu discurso, nunca afrontam a ordem estabelecida e vão perpetuando o tédio das amenidades. Ninguém ousa nada. Os cronistas ou articulistas que são lidos e fazem sucesso são os polêmicos, os corajosos que têm peito pra escrever com todas as palavras o que ninguém ousa dizer. São catárticos os artigos que escrevem ou os programas que apresentam porque há milhares de pessoas que necessitam que seus desejos e expressões não sejam controlados ou editados até nas próprias seções de cartas dos leitores. Sim, cartas de leitores também são sempre amenas, as críticas não são publicadas. Amenidades atuais só encontram paralelo no clima dos anos da ditadura militar brasileira.

Arnaldo Jabor faz sucesso, é reproduzido em vários jornais do País porque seus artigos ousam tocar em temas que os acomodados não ousam. Há quem o deteste e os que o amam por isso, mas é inteligente e corajoso, isso não se nega.

O programa televisivo CQC vai pela mesma trilha e é interessante exatamente por ser ao vivo e por revelar coisas, como a ignorância e as limitações dos nossos políticos sem nenhuma restrição, às vezes seus repórteres apanham porque enfrentam e desafiam os poderosos com suas perguntas inusitadas. Até as amenidades nesse programa são desconstruídas pelos repórteres que sabem que artistas e poderosos acreditam ser seres  especiais. Juram viver num mundo acima do bem e do mal.

Sabem revelar suas idiotices e limitações intelectuais de maneira que os tornam meros humanos e os irritam profundamente. Polêmicas irritam mesmo, claro, elas fazem com que o leitor ou telespectador se veja na sua pequenez e o obriga a pensar, coisa que os carneirinhos adoradores de amenidades odeiam. E o leitor pode observar: os carneirinhos que hoje dirigem órgãos da imprensa local e nacional eram os jovens direitistas na época da ditadura militar — são os vencedores, ficaram com a parte do leão. Os que têm coragem pra dizer verdades insuportáveis para a grande manada são detestados ou censurados — só há essas duas opções para os editores da maioria das publicações, não conhecem outra. Se antes amenidades eram decretadas pela ditadura militar, agora o são pela auto-censura, o medo de perder o emprego e assim é que o mundo foi virando essa cataplasma-de-farinha-de-mandioca morna e chata.

Quem aprecia amenidades que compre revistas especializadas nelas. Têm o mesmo direito que os outros que preferem as polêmicas que fazem pensar e tomar partido. Afinal, a mídia existe porque o leitor permite e paga pra que exista e cada leitor ou telespectador tem o mesmo valor que um anunciante qualquer, pode e deve exigir que ela vá além do óbvio e de amenidades conformistas. O mundo ficaria menos chato e a censura poderia usar seu nome verdadeiro, sem pudores e disfarces: censura remanescente do militarismo.

Mas cadê coragem? Foram quase todos domesticados no grande circo brasileiro. Alimentam-se de amenidades ou de sensacionalismos do momento. São tantos. Estão todos saciados e satisfeitos.

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Comentários (2)

  • É exatamente isto que está acontecendo! A mediocridade estabeleceu-se neste país, ultrapassando as fronteiras da política, da mídia etc e o povo, aparentemente anestesiado pelas "benesses" tornou-se apático e concordino, verdadeira massa de manobra. Parabéns pelo artigo. Há que se encontrar um meio de que estas ideias sejam espalhadas aos quatro cantos para ver se ainda este amado país tem jeito.

    1 ano atrás por VERA LUCIA NASCIMENTO
  • Descobrir por acaso esse site e o primeiro texto que li me deixou totalmente apaixonada, a forma com que os assuntos são tratados me deixam extasiada. Expressam exatamente o que eu queria ler, ou até escrever, mas claro não com tanta qualidade. Meus sinceros parabéns ganharam uma admiradora fiel

    2 anos atrás por Gabrielly Campos


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