Aleijado por dentro
você pode lustrar seus sapatos e usar um terno
você pode pentear os cabelos e parecer fofinho
você pode usar um colar e uma gravata
uma coisa que você não pode esconder
é quando está aleijado por dentro
você pode usar uma máscara e pintar sua face
você pode chamar a si mesmo de raça humana
você pode esconder seu rosto atrás de um sorriso
uma coisa que você não pode esconder
é quando está aleijado por dentro
você pode ir a uma igreja e cantar um hino
julgar-me pela cor da pele
você pode viver uma mentira até morrer
uma coisa que você não pode esconder
é quando está aleijado por dentro
John Lennon
Dezembro é ducaralho! É mês em que cegos acorrem às ruas como uma legião. Apossando-se dos semáforos da cidade, estão sempre ladeados por fiéis escudeiros que enxergam longe, dentro da alma das pessoas. São homens de visão, sócios abnegados, comparsas pau-pra-toda-obra que mais se parecem com as rêmoras, os peixes comensais oportunistas que ficam grudados nos ventres dos tubarões através de poderosas ventosas, próximos às suas bocas, a fim de se fartarem com fragmentos de carnes dos animais devorados. Com as sobras se fazem fartos banquetes.
Igualmente sóbrios, interessados em tirar proveito do clima natalino que hipnotiza as cidades, período do calendário em que muitos se julgam os baluartes da caridade e se auto-denominam “pessoas do bem”, saltam às ruas outros especialistas em mendicância: grávidas com semblantes abatidos, aleijados com todas as variedades de anomalias (estes cidadãos não merecem ser chamados de “portadores de necessidades especiais”, pois fazem da própria deficiência física uma vernissage deprimente), doentes exibicionistas com tubos e coletores fecais, ex-viciados viciados em arrecadar dinheiro de motoristas com remorso, dentre outros. O fraudulento espetáculo de benevolência atinge o seu ápice no final de dezembro. A invasão de shoppings, feiras e lojas pelo povaréu em êxtase garante o faturamento do comércio, os pagamentos de 13º salários e a arrecadação estrondosa de impostos pelo Governo (muitos dos quais revertem para meias, cuecas e outras indecentes peças do vestuário da corrupção).
O sacrifício e a hipocrisia são tamanhos que, não somente se abraçam as pessoas que se repugnam (sim, também sentimos ódio e inveja), como compram presentes e fazem declarações públicas de afeto tão inverossímeis que mal resistem ao pipoco de um foguete na entrada do Ano Novo. A raiva é um velho sentimento da raça humana.
Muitos, contudo, encontram enorme dificuldade para se entregarem tanto assim ao próximo e providenciam, com discrição, a troca de nomes em sorteios de “amigos ocultos” (por que não mudarmos para “amigos fingidos”?!) a fim de evitarem constrangimentos por terem tirado o nome de algum desafeto no grupo. Alguns precisam trocar os papeizinhos mais de uma vez, em virtude do irrisório trâmite entre os seus pares.
Sentem-se muito mais leves, libertos e próximos de Deus aqueles que, arrebatados pelos surtos de desapego ao dinheiro, fazem doações financeiras quase sempre comedidas (pífias mesmo) para instituições de caridade, desde que estas estejam credenciadas nos órgãos arrecadadores governamentais para fins de abatimento na declaração de imposto de renda. Conveniente de verdade é doar traquitanas que não se usam mais e roupas velhas que entopem os guarda-roupas. Há que se desocupar espaço para novas aquisições do vestuário. É emergencial manter as aparências.
Nenhum mal, enfim, resiste à noite de Natal, aquele momento mágico em que os comensais se fartam com os comes e bebes e se declaram irmanados, comprometidos em fazer o bem sem olhar a quem. Pouco ranço resta após os discursos regados às lágrimas (e embriaguez), saudade dos que já se foram (e estão definitivamente livres dos espetáculos hipócritas) e orações bradadas de mãos dadas, olhares cabisbaixos e uma vertigem inexplicável, meio santa, meio sacrílega e, muitas vezes, falsa.
Dezembro, portanto, é estação propícia para a lavagem de escadarias de igrejas velhas e também da roupa suja acumulada durante o ano inteiro. É tempo de arrependimento e fraternidade. Temporada de se fazer o bem. Parecemos tão bons que até Papai Noel acredita na gente. Quem haverá de quebrar o encanto e lhe dizer que o verdadeiro amor não existe? Ah, dezembro... Dezembro é ducaralho!





