Abraçados à infâmia
O ser humano não é um caniço pensante, como o definiu Kant. É uma errata ambulante, alguém que deveria se desculpar o tempo todo com a Vida, por lhe provocar tantas feridas, em tantas trombadas de desmantelo onipresente. Isto porque pensa erroneamente, e assim se condena a uma ciranda de erros, da qual jamais se desliga, por estar viciado à sua errância interminável.
Por ser o erro primário a base sobre a qual constrói com areia o edifício de seu existir, difícil garantir que sobreviva aos vendavais inevitáveis. Sendo um ser do erro compulsivo e auto-reprodutivo, não acerta porque sempre erra, ou erra por não saber o caminho do acerto? Mesmo levando uma vida infame e hedionda, procura manter uma aparência de respeitabilidade. Quer ser respeitável celebridade até no crime e na infâmia, passando pela contravenção social e moral – rejeita a idéia de ser um qualquer bandido comum. E assim vem sustentando a arquitetura de sua longa miséria.
Este ser corrompido e corruptor poderia ser salvo pela arte, se tivesse mantido ao menos resquícios de sensibilidade. No dizer do poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta – então, até a própria vida tem que ser reinventada. Mas só pode fazer isto alguém que esteja de fato vivo, e não tenha sido reduzido a cadáver adiado, besta sadia ou doente, que procria. Uma pessoa não totalmente anulada em sua vida interior poderia, com a arte, e quem sabe com o humanismo e a espiritualidade, encontrar um sentido da vida.
Assim poderia ir além dos interesses egoístas, autocentrados e mesquinhos da busca frenética por mais sucesso, poder e dinheiro. Pertencem a esta grei os que, nos parlamentos, para não ferir o decoro, ostentam total indecorosidade, ostensiva e contumaz, ao se dirigem a colegas de quadrilha, falam como um Marco Antônio ao contrário: “Vossa excelência é um canalha”. Ou então “Peço licença a vossa excelência para subir à tribuna, não para honrá-lo, mas para defenestrá-lo”. O psicanalista Norberto Keppe nos adverte para o fato de que a pessoas de consciência invertida tendem a só ter pensamentos negativos,, de qualidade semelhante à sua consciência: “É natural e inevitável que a pessoa de consciência invertida escolha o mal, para si mesma e para os outros.
Ao contrário, porém, de usar o poder da vontade para nos libertarmos das emoções tóxicas, e pensamentos repulsivos, que nos empurram para a inveja e a maldade, canalizamos a energia para fortalecer todo este lixo mental. O resultado é nos mantermos afastados a beleza, do Amor e da bondade e compaixão para com todos os seres vivos. A decadência em que mergulhou nossa sociedade é resultado da escolha que fez, de usar a liberdade para agredir a natureza, poluir as fontes de vida, e promover a morte e a destruição. “Assim, por sua própria escolha, o ser humano transformou a si mesmo em um demônio anti-vida”, enfatiza Norberto Keppe, clínico psicanalista formado na escola de Viena, onde Freud e Jung pontificaram.
Norberto Keppe vem nos ensinar, em sua trilogia analítica: a resistência que o Homem tem aceitar a morte vem de sua hostilidade em relação à própria vida. Ele rejeita a transformação porque se acomodou na estagnação. Escolheu viver no pântano da morte, em vez de navegar nos rios da Vida. A ironia reside em que, sendo uma criatura pérfida e perversa, voltada para a destruição de tudo o que vive, não quer que a morte exista, e contra ela se rebela. Em sua inveja de Deus, o ser humano encarna o Diabo em si, e ataca tudo o que é divino.
O triunfo da vontade corrompida pelo egoísmo e a perversidade é o poder com que investe contra as fontes de vida. E quanto mais se submete ao domínio de sua vontade invertida, mais avilta a Consciência, e mergulha no inferno em vida. Uma vez corrompido, estende a corrupção a todo o corpo social em que vive. Daí poder-se dizer que a decadência da sociedade é o resultado de sua própria decadência como pessoa. Como pode uma sociedade dar certo, se a sua célula essencial (a única dotada de razão, emoções e sentimentos) vive em oposição a si mesmo, em um impulso auto-destrutivo totalmente irracional?
Desconfiar de nós mesmos, colocar nossas vontades em quarentena, ou em observação atenta, é o passo necessário, para avaliarmos até que ponto se tornou degenerada a nossa consciência. Um critério seguro é cada um perguntar a si mesmo (e responder com honestidade): aquilo em que mais eu me empenho é sempre contaminado pelo desejo egoístico de satisfação pessoal? Se for, a vontade nascida deste querer ambicioso não é fruto de uma consciência sadia. Então, para re-tomar o caminho saudável da vida natural, devemos ter controle sobre nossos desejos, a fim de que o poder da vontade não seja, por nosso intermédio, uma força maléfica e destrutiva.
Essencial é sair da ética passiva, meramente retórica, tão presente no discurso dos políticos e pregadores religiosos (profissionais da fé). Pois a ética só é verdadeira e transformadora quando se manifesta como ação em si mesma, desapegada de seus resultados, totalmente renunciante a receber encômios, comissões ou aplausos de vassalos ou de admiradores assalariados. A consciência de ser o que (ou quem somos) naquilo que fazemos (não somente no que falamos), é o passo essencial a ser dado, para uma verdadeira mudança na qualidade de Ser.
P.S. Krisnhamurt, sábio indiano, falava, em palestra, sobre a necessidade de o ser humano mudar o mundo a partir da mudança de si mesmo. Alguém da platéia pede a palavra e diz: “Mas se eu tiver que viver assim em morrerei!”. A resposta de K. foi cortante como navalha: “Pois então morra”. Só as criaturas dispostas a morrer em sua mudança podem mudar o mundo em que vivem. No caso, o sábio conclamou a que morresse a consciência invertida, uma doença de alma, que não quer morrer. Pois nada tem mais vontade e força de viver do que o mal, e a destruição de que ele é capaz. Por isto é tão difícil abrir mão de viver na errância, na maldade e na corrupção...





