A voz do meu avô
Meu avô era tudo de bom. Não sei se outra pessoa tenha me deixado marcas sentimentais de maior efusão e encanto. Até meus 10 anos a gente morava longe. Mas, na medida do possível ele montava em seu cavalinho e nos visitava.
Em suas visitas, assim como um rei mago, ele me brindava com os presentes mais legais do mundo: um pacote de balinha, um pião com fieira, um caniço de bambu, com linha caiçara, encastoo, chumbada e anzol. Além de um embornal cheinho de frutas tiradas de seu próprio quintal.
Pra mim ele era um deus portador do fogo da alegria. Quando vinha, a gente brincava de peteca, montava em cavalo (no dele, que a gente não tinha), pescava no riacho, imitava a cantiga dos bichos do mato, fazia caçoada, treinava travalíngua do tipo há um ninho de mafagafos com sete mafagafinhos... Aos 11 anos, quando entrei pra escola, fui morar com ele.
Quando meu avô morreu, há nove anos, escrevi um poema no calor da emoção e declamei em sua homenagem, à cabeceira do ataúde. O poema vai a seguir, com os versos esticados, em forma de prosa: “O compadre de Deus
Quando pequeno, ouvia o Zé rezador apregoar sobre as maravilhas do céu e pensava logo no quintal do meu avô. Hoje sei que não estava enganado. O quintal do meu avô deve ser mesmo uma pequena sucursal ou, digamos, uma amostra-grátis do céu. Pelo menos para os filhos, os netos, os amigos, os compadres, os afilhados, os pobres e os pássaros que, em suaves sombras, se fartam de viçosos frutos. E não era só o quintal. Por onde passou, meu avô estendeu sua aura de suavidade seu sorriso colhedor, sua conversa fácil e parceira, sua liderança sem alarde ou ardil.
Num tempo em que o revólver, a bravata e a força bruta integravam qualquer certo de contas, ele conseguiu definir todas as suas divisas de terra confusas com sua fala honesta e mansa.
Num tempo em que os pais costumavam espancar os filhos a título de educação ele educou a todos, e não foram poucos, com amor, exemplo e temperança. Jamais alterou a voz para impor sua sabedoria. Soube compreender as reviravoltas que o moderno mundo deu sem se desesperar ou ficar descrente. Ó meu velho avô, agora que você foi cumprir sua agenda com Deus, dê-Lhe um abraço por nós.
Fico imaginando como foi a algazarra no céu quando você chegou cavalgando sua nuvem. Os anjos devem ter se acotovelado nas balaustradas celestiais e se esmerado em mesuras. Ao abrir o portão, são Pedro escancarou um sorriso de uma a outra orelha. Deus apeou do trono, esqueceu do cetro e da pose divina e veio lhe receber de braços abertos. Tenho certeza que Deus também é seu compadre.”
Esta semana fui brindado com um presente tão bom quanto aqueles de meu avô. É que meu primo-avô (nosso código civil não contempla tal parentesco), o médico Paulo de Tarso Lira Gouveia me deu de presente um CD que gravou com meu avô, sobre velhas histórias da família, em seu último ano de vida. Ao ouvir a voz amiga que embalou meus sonhos de infância e me amparou até a maturidade, não pude resistir. Chorei de emoção, uma emoção antiga e úmida, ainda pueril, que eu pensava já haver secado em mim.






