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POR EM 17/02/2010 ÀS 03:02 PM

A vida são muitos dias

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Quem teve sua existência levada pela senda do desespero, mas não perdeu de vista a esperança, conseguiu o milagre de confundir sua vida com a poesia. Na lucidez do compromisso de querer ser feliz, rompeu o casco espesso de chumbo da solidão e viu o rosto de Deus no oceano da solidariedade. Sendo o passado e o futuro ilusões da mente, só o instante que passa — só o presente é realidade, e só poderemos ser felizes nos momentos em que nos sentimos dadivosos e receptivos, alegres e confiantes.

Toda cegueira e limitação consiste em só colocarmos em ação a parte pequena que temos dentro de nós. Ao conseguir colocar para agir a nossa parte divina, veríamos as coisas tais como são, isto é, infinitas. “A vida são muitos dias”, escreveu o poeta T.S. Eliot. Quando se deparar com um problema que o angustie e deprima, pense como lhe parecerá pequeno daqui a dez anos. Tudo passa, como passam as águas e o vento. Daqui a dez anos os problemas serão outros, e nós também. Sobre o projeto de grandeza ou pequenez que cada um pode levantar e executar, a partir de seu sol interior, assim falou Confúcio: “Aqueles que seguem a parte de si mesmos que é grande serão grandes homens. Aqueles que seguem a parte de si mesmos que é pequena se tornarão pequenos homens”.  No princípio tudo era oculto. Mas para que existe o oculto, senão para ser revelado? Os homens primitivos tinham a graça de contar com os símbolos, para decifrar os enigmas do universo, e os mistérios da natureza.

Os homens a quem chamamos de selvagens passavam de geração a geração a memória da natureza, e sabiam o segredo misterioso e profundo da árvore da vida: “A árvore da vida abriga o conhecimento do bem e do mal. Em seus ramos os pássaros pousam e constroem seus ninhos, e os anjos e as almas encontram lugar”. Todos os seremos humanos possuímos um desejo comum: escapar das limitações de nossas vidas, da asfixia de nosso meio próximo.

O fato de tudo ser oculto e misterioso não nos dispensa de buscar, sonhar e investigar. Colin Wilson, em seu livro “O Oculto”, enfatiza: “Passamos a vida perscrutando as coisas tão de perto que simplesmente não conseguimos captar seu significado óbvio. Uma espécie de preguiça nos empurra para baixo. É triste pensar que a maioria das pessoas aceite passivamente a banalidade de suas vidas.
O primeiro passo para a transformação é compreender que o destino do homem não é passar a vida inteira com uma visão rasteira, como a de um verme, assim como a sina do pássaro não é viver para sempre no chão. Possuímos uma faculdade natural que nos permite o afastamento, para entrarmos em sintonia com vibrações mais sutis. Para os seres humanos, o tédio e a depressão constituem anormalidades — representam o fracasso na utilização de seus poderes naturais”.

Segundo Einstein, é por isso que se procura fugir das cidades em busca da paz das montanhas, nos feriados e fins de semana. A estreiteza de nossas vidas bloqueia os sentidos, até que nos sentimos sufocados. Daí porque um físico famoso, como Ouspensky, sentia-se atraído pelos livros sobre a Atlântida e a magia. É fundamental que sintamos existir outra espécie de conhecimento que extrapole a rígida lógica de nosso racionalismo dualista — por isto os humanos apegam-se a realidades que vão além dos muros que os cercam. Ao poeta W.B. Yeats intrigava e fascinava o poder dos símbolos sobre a vida das pessoas. Atribuía isto ao fato de existir uma espécie de memória racial, independente das memórias individuais.

Talvez seja bom que tão poucos creiam, pois fossem muitos, muitos trocariam os parlamentos, as universidades e as bibliotecas pelos grandes espaços vazios, para de tal forma definharem o corpo e silenciarem a mente inquieta que, ainda vivos, pudessem passar pelas portas que os mortos atravessam todos os dias. Pois, quem dentre os sábios, se preocuparia em fazer leis, tratassem eles de história ou do peso da terra, se as coisas da eternidade se apresentassem tão à mão?”.  No mais, é como escreveu a poetisa e psicanalista Cheila Stumpf: “A solidão/ só ela junta cacos/ e leva nos bolsos/ carretéis desenrolados/ prontos/ para se atarem/ ao voo dos desavisados/”.   

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