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POR EM 23/03/2009 ÀS 08:52 PM

A viagem de Eros

publicado em

As relações entre os dois professores super eméritos nunca passaram da cortesia civilizada com que profissionais se cumprimentam por trabalharem na mesma área. Os cumprimentos entre os dois, trocados nos corredores da colenda e provecta universidade, jamais passaram do cortês, formal e cerimonioso, mesmo estando ambos na faixa perigosa dos 50. “Como vai, professor doutor?” - Eu vou bem, professora doutora, e a senhora?”.Tudo entre eles fora obsequioso e até mesmo frio.

Certo dia ocorreu de terem de comparecer à capital federal, para missões a diferentes repartições do Ministério da Educação, três renomados e sisudos professores doutores, sendo dois do sexo feminino, e o outro pertencente ao assim chamado “sexo forte”. Por questão de economia, é claro, que os tempos já estavam bicudos, foram os três no mesmo veículo, oficial, negro, como as asas da graúna – conduzia o bólido semovente, é claro, o motorista funcionário da universidade.

A viagem de ida foi quase inteiramente muda – alguns ralos comentários sobre como o cerrado fica queimado, em época de seca, e de como renasce das cinzas, feito a Fênix, logo que caem as primeiras chuvas. Ia à frente do bólido semovente o motorista, uma professora, casada, e muito bem casada, como gostava de enfatizar, a todo e qualquer momento, indo no banco de trás o professor emérito, não se sabe se por seu senso de oportunidade política (leia-se: mau-caratismo & puxa-saquismo) ou se por seus duvidosos e questionados méritos. Quase nem se olharam, decerto pensando na gravidade dos assuntos que os levavam a representar suas instituições, na capital do poder.

De tardezinha, quando encontraram-se, no lugar previamente marcado (pois que cada um deles fora gestionar, peditorar & peticionar em repartições diferentes), limitaram-se a trocar comentários sobre a pontualidade com que compareceram ao local marcado para a volta. Ia o bólido semovente em sua marcha oficial, nem vagaroso nem rápido a ponto de ser flagrado por alguns dos inumeráveis pardais arrecadatícios, (olho eletrônico do Estado que pune $ vigia) colocados nas vias congestionadas do Detrito Fuderal, digo, Distrito Federal. Caía sobre o mundo um escurinho de cinema – só que não passava filme algum, apenas a paisagem rala do cerrado, no lusco-fusco da noite a engolfar com suas sombras as últimas luzes do dia.

Antes mesmo de saírem da malha urbana da capital o carro deu um solavanco, por culpa de um buraco no asfalto. A professora doutora assustou-se, roçando a mão na mão de seu colega, que empertigado estavam empertigado ficou; logo adiante, outro buraco, e outra expressão de sua  parte, de que sentia medo. Outro roçar de mãos. Nada a se estranhar, não há demérito em ter medo. A mão do magister dixt, que nunca foi boba, no que tange a assuntos de cochambração & amassos, ali ficou, como esquecida, esperando por outra investida.

Outra esfregação de mãos, como que não querida, mas era coincidência demais, e o professor meritório sacou o lance, morou na jogada, fez a leitura do significado e do significante - apertou os dedos da eminente colega entre os seus... o que deu início ao que sucedeu, de lascivo contato imediato de primeiro grau, que eu não relato neste espaço, por não ser o local apropriado, e também porque não posso perder o emprego.

Vieram as duas eminências acadêmicas perpetrando o que vocês quiserem ou puderem quiserem imaginar, e o que sempre vem de suceder entre um homem e uma mulher, quando o capeta põe os chifres para fora, ou quando Cupido dispara a sua flecha. Vá alguém tentar entender as profundezas da mente humana! A viagem meritória acabou no horário previsto, uma vez que a viagem seguiu, monótona e sem imprevistos (ao menos para motorista e a eminência que ia na frente).

O eminente professor-doutor, por motivos óbvios, desembarcou meio sem jeito, e foi providencial que tivesse consigo a sua indefectível pasta preta. Despediram-se os passageiros com formalidade acadêmica, na condição de colegas de profissão, aliviados pela consciência do dever cumprido. A flechada de Cupido (ou de Eros) ficou por ali mesmo, uma vez que os dois ardentes passageiros do banco de trás continuaram a se tratar com a mesma distante formalidade e cerimônia doutoral, quando se viam, nos corredores do sagrado templo do saber.    

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