A pátria patropi
Mazaropi ou Glauber Rocha? O primeiro fez o papel do caipira paulista, falso ingênuo e esperto analfabeto que sabia compreender a desfaçatez do coronel, bem como a esperteza do político. O segundo fez cinema ideológico, politizado até os cabelos da película, colocando o cangaceiro como um herói popular, um vingador do Zé-povinho invisível dos sertões miseráveis e ressequidos do Brasil dos grotões. Embora Glauber, o gênio baiano, seja aclamado como gênio do cinema, e certamente o foi, em clássicos como “Terra em Transe”, ou em “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, Mazaropi é o caso brasileiro de absoluto sucesso de público.
Tanto assim foi que ele chegou a ser diretor e produtor, além de ator de seus filmes, que levavam multidões as salas de exibição. Nem Xuxa, com todo o seu aparato publicitário, levou tanta gente a ver seus filmes quanto levou Mazaropi, na representação do caipira paulista, de andar grotesco, modos rudes e tacanhos, nada gentil com as mulheres, e sempre esperto e matreiro, em sua falsa rusticidade. Se tanta gente acorria a ver seus filmes é porque as populações urbanas do Brasil, recém-chegadas do campo, identificavam-se com as situações colocadas.
Interessante é notar que, tendo realizado seus filmes em época de intensa politização da arte, havendo quase uma obrigação de ser ou parecer de esquerda, jamais sua estética pendeu para este lado. Até porque não só o personagem, mas seu autor, era conservadores do ponto de vista político, embora propensos a criticar o coronelismo de nossas práticas de mandonismo político exercido em currais eleitorais, o povo sendo manietado e tangido como gado. Exatamente como hoje ainda se faz, não com surras, botinas e castigos, mas com salário família e cestas básicas, mantendo no curral do conformismo e da armadilha da dependência o exército eleitoral de reserva.
Como nesta vida tudo passa, passou o cinema novo, com sua estética esquerdizante, uma tendência obrigatória naqueles tempos, ao ponto de um cineasta de talento, como Walter Hugo Khoury, autor de um filme importante, como “Cidade Vazia”, ser não só esnobado, mas discriminado ou sabotado. Glauber Rocha continua a ser objeto de culto, venerado e idolatrado em círculos fechados da intelectualidade livresca, mas pouco visto, e praticamente desconhecido do povão que ele tentou retratar e defender, através de seu cinema “revolucionário”, tanto na forma como no conteúdo.
Mazaropi também passou, pois o modelo em que se baseou seu lendário personagem – o caboclo ingênuo e tosco, dos grotões do Brasil – há muito deixou de existir. Hoje ele vê os canais abertos de televisão, não perde uma novela, ou as versões do Big Brother, sendo obrigado a engolir a poesia paupérrima (de louvor às drogas e à bandidagem) de horrível hip hop. Os que não foram expulsos do campo pela mecanização da agricultura, agregados a pequenos e médios proprietários rurais, não dormem direito, morrendo de medo de serem atacados pelas hordas organizadas de baderneiros auto-apelidados de sem terra. De Mazaropi e Glauber Rocha passamos do estado de sítio para o estado de fazenda. O que já foi uma evolução considerável, ao menos no tamanho da calamidade.






