A mulher balzaquiana
João do Rio, flaneur e cronista do Rio antigo, está na moda. E é para ficar triste? Absolutamente, não. Até porque, no gênero crônica, chegou a superar o bruxo Machado de Assis. Isto porque, no Rio de janeiro de seu tempo, viu tudo, observou tudo, anotou e comentou, com verve satírica e ironia mordaz. Sendo um bom burguês, endinheirado sempre, conviveu com o fogo; brincou no carnaval, subiu ao morro, viu a favela, esmiuçou o esgoto humano do mangue, documentou a miséria da prostituição, foi ao cais do porto, ver como fala e, sofre e sobrevive o povo.
Mas, sendo um bom burguês, também foi a Paris, tomar um banho de luz e de cultura eurocentrista, pelo que voltou metido a besta à tórrida umidade do Rio antigo, que de verdade neste tempo era uma cidade maravilhosa – sem ninguém a viver em polvorosa, temendo ser atingido por balas perdias de polícia ou de milícias.
A mulher de trinta anos – a balzaquiana clássica – foi assunto para sua verve implacável e ferina. E não era para menos – desde os tempos do velho e bom Balzac, o mistério da mulher madura permanece como enigma indecifrável, mesmo à análise mais perfunctória da sociologia de buteco. Pois é mais que certo: há quem prefira uma balzaquiana no jeito a um caminhão de ninfetas.
João do Rio, que não era chegado a balzaquianas nem a ninfetas (antes, preferia a companhia de efebos, saradões e saradinhos de seu tempo; pelo que sofreu atroz preconceito) foi o primeiro imortal da Academia Brasileira de Letras a envergar o faustoso e ridículo fardão – vestimenta tão atroz que fez José J. Veiga recusar-se a vesti-lo, nem enfrentando aguerrida campanha, ou a convite, se fosse o caso. Quanto ao cronista flaneur de que se fala neste texto, dado a escândalos, como Charles Baudelaire, seu precursor, morreu em um táxi, de enfarte, aos 40 anos.
Um cortejo de quase cem mil pessoas acompanhou seu enterro. Uma glória, para quem, naqueles austeros tempos, fazia observações insinuantes sobre os “Rapazes encantadores”. Para ele, uma guerra longa deixa de ser sensacional. Já pensaram em Machado de Assis, sisudo e compenetrado, gravatinha e camisolão como era, entrando em um prostíbulo, para conversar com mulheres de vida alegre e airada, representantes da mais antiga das profissões?
Já pensaram no Presidente da Academia, tomando rapé com os estivadores, tirando com eles um dedinho de prosa, no cais do abandono ou no morro da perdição? Pois João do Rio foi, viu e contou o que sentiu. Daí porque suas crônicas, escritas para ser efêmeras, tornaram-se perenes relatos de uma cidade que, mesmo sendo muito mais bucólica e maravilhosa do que é hoje, já tinha seus problemas. Por falar em academias (não de músculos, mas de letras), diga-se: desde os tempos do Bruxo Machado de Assis, tendem a darem couto e homizio a ex-reitores servidores de ditaduras, proprietários de bois, políticos, pessoas boas de bolso (isto é, milionárias) e a celebridades de verão. Isto quando não se comprazem em se tornarem loucademias de juristas.
Tudo em João do Rio me encanta, principalmente o seu humor. Vejo, nas “Crônicas Efêmeras”, coletânea recém lançada pela Ateliê Editorial, o fino lavor de sua prosa sarcástica: “A moral é uma qualidade que se exige nos outros.E é sempre uma covardia defensiva. Os elefantes não têm moral e são os animais mais honestos da criação. Mais irritante do que um socialista só burguês respeitável. O socialista arremete e deixa-se enganar. O burguês recua e engana os outros. Um é o assalto ao bem-estar, o outro é o eunuco do bem-estar. Ambos, porém, se confundem na incapacidade de compreender”.
Em “Reflexões para não serem lidas” ironiza o implacável e mordaz cronista de costumes: “Na sociedade contemporânea encontram-se reunidos quase sempre vários cavalheiros que se sustentam na vida com brilho sem renda e sem trabalho claro. Olham-se então como admirados de ainda não estarem na cadeia. Veneram-se, temem-se, invejam-se. No fundo, uma reunião de patifes é muito mais sincera”.
“Um homem de espírito, quando inicia uma paixão, já pensa seriamente no prazer de a terminar. Uma mulher, com espírito ou sem ele, antes, durante e depois só pensa em continuar. Desse grave desacordo de opiniões nascem às vezes as maiores tragédias e os maiores aborrecimentos. (...) Para o homem que sente, só uma coisa mais triste do que ter trinta anos: é ter quarenta. Aos cinqüenta começa a chegar a resignação que é a mineralização da alma. Para as mulheres, trinta anos condensam, englobam, arregimentam todos os desesperos e todas as coragens. Mesmo porque não há mulher que, confessadamente, tenha mais de vinte e nove...”.






