Desenho de  Wendy MacNaughton
revista bula

compartilhe



últimos comentários

últimas no twitter

  • O Evangelho Segundo Lennon e McCartney | Revista Bula http://t.co/H7JjAESE
    1 hora atrás
  • @fpulcineli Número cabalístico: 5.000
    2 horas atrás
  • Casos de divã, se resolvem no divã...
    3 horas atrás
  • RT @screamyell Esse twitter novo é genial, mas ao contrario
    3 horas atrás
  • RT @revistaabsurda Para comemorar o #CorruPTosDay, o PT manda prender 150 PMs grevistas.
    4 horas atrás

parceiros

  • twitter rank


sugestões de livros

  • e eventualmente nojentas de casais escatológicos

sugestões de filmes

POR EM 29/12/2009 ÀS 09:50 PM

A montanha mágica

publicado em

Revista BulaNinguém será o mesmo, depois de vertiginosa temporada nas vastas altitudes literárias de  “A Montanha Mágica”, de Thomas Mann, em que gerações nascem, vivem e morrem, sempre a indagar sobre o sentido da história e a lógica absurda do tempo; após viajar léguas de beleza e pura magia poética, ou de maravilhar-me com a iluminada escuridão do rosto sertanejo de Deus e do Demônio, nas páginas imortais do “Grande Sertão:Veredas”, de João Guimarães Rosa, o sentimento que nos possui é o do deslumbramento abissal, de par com o desconforto e o desânimo. Depois de saber que tais personalidades dos cumes literários legaram à humanidade suas obras de transcendente e imortal beleza e expressividade, a pergunta que nos ocorre é: que sentido pode haver, em continuar a escrever toscas palavras, inspiradas em nonadas? De que adianta continuar a fazer biscoitos, enquanto eles ergueram pirâmides? 

Que insensatez e que inútil vanidade é continuar a escrever e publicar livros a mão cheia, depois que um bardo divino, tão vasto e  tão maior do que ele mesmo, que não sabia dizer quem era, mesmo sendo William Shakespeare? Escrever poeminhas de pé quebrado, depois que o iluminado bardo escreveu seus imortais sonetos seria como acrescentar um tijolinho mal queimado sobre a muralha da China. Mesmo sabendo de tudo isto, e mesmo que tal consciência seja esmagadora à nossa presunção e vaidade de que o que fazemos constitui algo essencial ao nosso tempo, continuamos a escrever e a publicar, livro após livro; e o fazemos talvez com a irreverência de um Bertolt Brecht, ao escrever: “Eu sei que existe gente com fome e sede, mas mesmo assim eu como e bebo”. 

Assim, também, enquanto perpetro minhas literatices em retratos em 3x4 (e em branco e preto) leio e releio tais obras imortais, das cumeadas literárias, movido pela humilde devoção de quem se sente orgulhoso, por saber que sou dotado de uma alma imortal, aberta e sedenta de beleza, como eles a tiveram e têm, satisfeito por saber que pertenço que vivi seu tempo, e pertenço à mesma raça e à mesma humanidade que os deslumbrou, inspirou e comoveu. 

Para não dizerem que  fico deslumbrado por pouco, aqui vai um fragmento da prosa imortal da “Montanha Mágica”: “Tal qual o tempo, o espaço gera o olvido. (...) Dizem que o tempo é como o rio Letes; mas também o ar das paragens longínquas  representa uma poção semelhante, e seu efeito, conquanto menos radical, não deixa de ser mais rápido. (...) Acontece, porém, com a história, o que hoje em dia também acontece com os homens, e entre eles, não em último lugar, os narradores de histórias: ela é muito mais velha do que seus anos”.  

Mas há também outra grandeza imortal no panteon literário: trata-se da novela Moby Dick, de Herman Melville. Por suas águas carregadas de simbolismo vemos que a noite mais longa é a dos profetas, que sofrem em silêncio as dores do mundo – e a solidão dos assassinos, em não poder matar nos vivos a sua chama imortal. Pobre e patético Aab! Em sua fome de produzir a morte, Aab jamais se compadece, embora às vezes possa se enternecer, pensando na criança inocente que poderia ser. 

Vai sempre em frente, a desafiar a fúria dos mares. Caçar Moby Dick é a obsessão que o move. Não recuará de seu propósito enquanto não atingir sua mortífera ambição. Ao conseguir sair da tempestade, vê nisto o sinal dos céus de que tem licença de Deus para prosseguir em sua insanidade. Na luz que desce ao tombadilho sente ter o poder para prosseguir, como todo insano, líder religioso ou político mata e destrói milhões de vidas em nome de Deus. 

Aab não recuará diante da advertência da voz da natureza. Afasta os últimos temores, antes de mergulhar em sua loucura assassina. Assim agem e pensam os fugitivos de Deus que, ferindo a lei da compaixão pelo vivo, fazem de seus atos monstruosos o único motivo para continuarem vivendo. Pensar que poderiam fazer, de seu potencial para fazer a morte, um objeto de esperança. Toda a tripulação do Pequod perde o senso de pensar. Ausente do tirocínio, rende-se à insanidade. É o instinto de Tânatos a triunfar em seu coração. Assim caminha a humanidade – tenente de seu destino – a fazer da morte o seu propósito, enquanto tece com a história trágica de suas guerras insensatas a saga trágica de sua violência e sua auto-destruição. 

P.S. Mesmo sendo a história bem mais velha do que os parcos anos de vida prestante dos fazedores de versos e contadores de histórias, que trabalham  com palavras, “mal rompe a manhã, mesmo sabendo ser esta a luta mais vã”: é que, por meio dos signos e falavras do verbo, é de se crer que, não faltando aos artistas engenho e arte, cada um coloca seu tijolinho ilógico no livro dos dias, que irá fazer parte da biblioteca labiríntica do universo – e assim cada escriba, escritor, grande vate ou poetinha de província navega à deriva, ou com instrumentos de navegação, no mar insondável da criação literária – e assim engendram  um pouco da tragicomédia da aventura humana sobre a terra, por sua insanidade anti-vida hoje mortalmente ferida pelo absurdo e o horror, que se tornaram mortal e mortífero alimento cotidiano.

Bookmark and Share

Comentários (0)



*Obs — todos os comentários são moderados.
Não é aceito nenhum tipo de script ou formatação, caso queira adicionar um link apenas cole o endereço normalmente.

É permitida a reprodução total ou parcial sem autorização prévia dos editores, desde que citada a fonte.
© Copyright 2009 — Revista Bula — Literatura e Jornalismo Cultural — editorial@revistabula.com


renovatio