A lição de Alcácer — Quibir
Depois de muito rolar por África e Ásia, Camões foi encontrado em Moçambique tão pobre que, no dizer de Diogo do Couto, que por lá passava, “vivia de amigos”. Com o auxílio deste mesmo Diogo, retorna, finalmente, à pátria, em 1568. Em sua quase inexistente bagagem, levava aquele que seria o maior poema da língua: “Os Lusíadas”.
Depois de uma Proposição, em que anuncia a pretensão de cantar o “peito ilustre lusitano”; depois da Invocação, em que as Tágides são chamadas a dar-lhe “uma fúria grande e sonorosa/E não de agreste avena ou frauta ruda,/Mas de tuba canora e belicosa”; depois disso tudo, colocava-se uma questão prática fundamental: era preciso publicar sua obra. Ora, no regime do mecenato, alguém de poder deve arcar com as despesas da publicação. Camões, na terceira parte do poema, na Dedicatória que faz a D. Sebastião, com o propósito de convencê-lo a autorizar a despesa, diz, por exemplo, no Canto 1, estrofe 8, “Vós, que esperamos jugo e vitupério/Do torpe Ismaelita cavaleiro”, ou, na estrofe 16, do mesmo canto: “Só com vos ver, o bárbaro Gentio/Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;”
Em 1572, quando publicados “Os Lusíadas”, por Alvará Régio desse mesmo ano, o rei D. Sebastião curtia sua adolescência régia, estava com 18 anos de idade. Por debilidades, inclusive de saúde, o jovem monarca acredita nas palavras do poeta e se julga realmente o “novo temor da maura lança”. Desde então alimenta o sonho de conquistar o Marrocos, quiçá todo o norte da África. Sonho alimentado, começa a preparar-se para o empreendimento. Em 1578, com 24 anos de idade, D. Sebastião lança-se na empresa bélica de conquista, isto é, a expansão do cristianismo e derrota do gentio. O resultado é bem conhecido: no dia quatro de agosto de 1578, no norte da África, nada sobra do exército português, dizimado pelas tropas mouras. O corpo de D. Sebastião desapareceu, dando lugar à lenda conhecida como sebastianismo. Portugal sofreu um prejuízo imenso, sendo um deles a incorporação de seu território ao reino espanhol de 1580 a 1640. Essa batalha, do dia quatro de agosto, deu-se em Alcácer-Quibir, de onde seu nome.
O cronista pode não ter sido exatamente fiel aos dados da história, aos fatos empíricos, mas o que diz faz muito sentido, ou seja, é um perigo cercar-se o governante de pessoas lisonjeiras, porque quase sempre ele acredita nelas.






