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POR EM 19/03/2010 ÀS 09:05 AM

A invenção da roda

publicado em

Isto me acontece com certa frequência: jovens que me assediam querendo saber, então, como é que é? O mundo do livro, em um país onde ele é artigo de luxo reservado a poucos privilegiados, conserva umas sombras misteriosas com que a moçada não se conforma e tenta iluminar. Quase sempre consegue apenas obscurecer. Rebelde sem causa, então, bate no dedão do próprio pé pensando que atinge a cabeça de quem viveu antes, também foi rebelde e agora prefere a doce e merecida paz conquistada com ou sem suor.

O último que me atacou com suas dúvidas queria saber se era possível alguém escrever um livro sem ter lido nenhum. Sim, porque na escola aprende-se o funcionamento da representação gráfica dos sons das palavras. Em geral, qualquer egresso de escola sabe ler e, muitas vezes, escrever. Tive de responder que, bem, impossível, inteiramente impossível não é. Uma vez que tenha frequentado uma escola e saiba traduzir em letras os fonemas de alguma língua, o essencial já está feito. Seus olhos brilharam vitoriosos. E imaginei que fosse um de seus projetos. Meu lado mau não deixou barato. Mas um livro desses eu não leio, acrescentei para estragar sua alegria.

O jovem me olhou aborrecido antes de perguntar por quê. Senti que acabava de perder um leitor, talvez um amigo, porque eles, tão convencidos de que são únicos não se dão bem com qualquer tipo de oposição. 

Contei-lhe, à guisa de resposta, a história do Adamastor, meu amigo luso-africano, que um dia me chegou derramando felicidade pelos olhos. Olhe só, ele me disse, cravando um prego em uma tábua, depois amarrando uma ponta de barbante no prego e a outra em um lápis, é possível desenhar uma figura geométrica perfeita. Cortando-se a tábua exatamente na linha traçada pelo lápis, obtém-se um objeto que pode ter muitas utilidades. Dei uns tapinhas no ombro do Adamastor e fui cuidar da vida.

Meu jovem inquisidor perguntou: — E daí?

Ah, juventude apressada, existe muita gente pensando que pode inventar a roda, e é melhor cuidar da vida do que ler o livro de quem jamais leu um.

Tenho a impressão de que ele saiu dali e foi comprar um livro. Ou riscar meu nome de sua lista. 

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Comentários (2)

  • Ah aborrecentes...
    E não: não se pode escrever sem ter lido. É impossível, como impossível é falar sem ter ouvido falarem. Não há como escapar: tal "imposição" vem desde que somos gente.
    Abraço,
    www.rodrigoepoesia.blogspot.com

    2 anos atrás por Rodrigo Della Santina
  • É o utilitarismo, meu caro.

    Abraço!
    www.formigueirocomunista.com/sss

    2 anos atrás por André HP


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