A invasão insidiosa
Levantei hoje com aquela sensação na boca do estômago geralmente chamada de náusea, que é a sensação causada pela certeza de que o planeta dá voltas em volta de si a uma velocidade terrível, e que a história, este cronicão das sociedades que vieram depois da pré-história com seus registros, não fica atrás dando voltas como louca.
Como andei fossando em livros que relatam a queda de impérios, para escrever meu romance “A Muralha de Adriano” (que não é um romance histórico quanto aos fatos, mas tem um viés alegórico relacionado à queda dos impérios), me vieram à lembrança aspectos do Império Romano em seu processo de decomposição.
Em geral quando se pensa na invasão do Império Romano atribuída aos bárbaros, imagina-se uma horda de homens de cabeleiras loiro-sujas montados em cavalos semi-selvagens que, a galope e aos gritos, ultrapassa as fronteiras do Império devastando plantações de trigo, destruindo pontes e estradas, ateando fogo nas aldeias, estuprando belíssimas e virginais camponesas romanas. Enfim, invasão de bárbaros deve ser uma invasão bárbara. E o cinema ajuda muito a manutenção de algumas falsas verdades.
Nada disso, meu caro. Os bárbaros (germanos, hispanos, francos, borgúndios, vândalos, anglos, lombardos, godos, saxões e tantos outros) na realidade foram entrando. Assim, como quem não quer nada. Nada de hordas montadas em cavalos quase selvagens, galopando aos gritos e invadindo as planícies italianas. Foram séculos de penetração, de povoamento de regiões desabitadas, de submissão a Roma. No século III começa a questão militar, a agricultura entra em crise, o império começa a não imperar mais. Os bárbaros já estavam lá dentro de longa data. Suas línguas já estavam misturadas ao latim. Rômulo Augusto, último imperador romano, já era filho de Orestes, um general bárbaro que trabalhara com Átila, o rei dos hunos. E Odoacro, quem deu o golpe final do império, nasceu perto do rio Danúbio, que não passava de uma província romana. Era rei dos hérulos, tribo germânica, há muito habitando a região hoje conhecida como Alemanha.
Tais lembranças me ocorreram depois de uma conversa com um amigo que recém voltou de viagem de estudos aos Estados Unidos. Falava-me o amigo do crescimento da população hispânica no país do Tio Sam.
Já existem muitas escolas de línguas nos Estados Unidos oferecendo English as a second language. Em alguns estados norte-americanos, vive-se muito bem sem saber falar inglês, tal a predominância da população de origem hispânica.
O que se prevê, e não para um futuro remoto, é que o inglês perca sua hegemonia e tenha de disputar com o espanhol a condição de língua oficial.
Imaginem-se os netos de Barak Obama estudando em uma dessas escolas: English as a second language.





