A intolerável alegria daqueles pequenos estranhos
A camionete avançou o sinal vermelho e derrubou no asfalto o motoqueiro. Eu vinha logo atrás, distraído, enclausurado numa cápsula sobre quatro rodas. Um carro. Apenas mais uma peça da nefasta engrenagem que se tornou o trânsito desta metrópole.
A picape arrancou em velocidade, sem prestar socorro ao acidentado, desaparecendo na paisagem urbana. Não tive tempo de anotar a placa, mas no vidro traseiro havia um adesivo que anunciava em letras garrafais: DIRIGIDO POR MIM, GUIADO POR DEUS. Uma sacrílega parceria atribuída ao suposto criador do universo, ainda mais naquela situação de erro e fuga.
Não fosse pelas escoriações e constrangimento, o sujeito até que se safou bem. Ele sabia que era apenas mais um motociclista entre tantos que se ferram no trânsito. Bateu as mãos sobre a roupa despregando a poeira da rua, pesquisando sangue, e agradeceu a Deus por não ter se ferido. Seria o mesmo Deus no qual cria o fujão da camionete?! Subiu na motoca e tocou em frente, misturando-se aos demais crentes e ateus.
Observar atentamente a cidade é uma forma de amá-la. Diariamente, numa famosa alameda perto da minha casa, há dezenas de pessoas praticando corrida. Os atletas amadores treinam ali mesmo numa beirada da rua, sob a sombra dos pinheiros (jamais poderia supor que pinheiros sobrevivessem ao inóspito clima quente desta região; da mesma forma que os passarinhos, à saga mortífera dos seres humanos). A presença dos corredores tem gerado alguma polêmica e está irritando vários motoristas que por ali transitam, a maioria deles sempre apressada, atormentada pelo tempo, arruinada pela própria bílis.
Por enquanto, os chefões da Agência Municipal de Trânsito tomaram partido dos pedestres, mandando sinalizar a rua com cones demarcadores, delimitando uma faixa na qual as pessoas estão autorizadas a correr. A medida garante uma segurança relativa aos atletas, até então, muito ameaçados de serem atropelados pelo ritmo frenético e alucinado do trânsito.
Para evitar mais dissabor e fel no trato digestivo, os motoristas indignados devem mudar o trajeto diário ou, de outra forma, calçarem os tênis e aderirem à salutar prática esportiva. Corridas e caminhadas fazem bem ao coração e afastam pensamentos nocivos, como “jogar o carro por cima daqueles desgraçados”.
Pressionados pela pequena parcela pensante da sociedade, a prefeitura tenta implantar na cidade a primeira ciclovia. Diariamente, em caráter extraoficial, os ciclistas já se arriscam ziguezagueando entre carros, ônibus fumacentos (por que ninguém multa estas empresas poluidoras?!) e caminhões de grande porte.
De vez em quando, um deles acaba abalroado, fica mutilado ou morre embaixo de algum um veículo. É claro que os acidentes atrapalham o trânsito, atrasam as pessoas (afinal, estamos mesmo correndo atrás de que?!), mas a vida segue, à exceção do próprio morto, que vira um mais dado estatístico na planilha.
Enfeitiçados pelo caos, muitos cidadãos amaldiçoam o prefeito porque ele está sendo frouxo ao permitir a inclusão da ciclovia numa das principais e mais movimentadas vias da capital, embora a concessão seja válida apenas aos domingos.
Nem mesmo aos finais de semana os soldados da roda-viva desapegam das cordoalhas cotidianas que vão deixando a vida cada vez mais chata: trabalhar exaustivamente, ganhar algum dinheiro, gastá-lo, pagar impostos à beça, preocupar-se até ficar doente, e morrer assim como veio ao mundo, ou seja, ignorante e vazio.
Viver (e sobreviver) nas grandes cidades transformou-se numa corrida tão frenética que já não há mais espaço, nem paciência, nem tolerância para iniciativas humanitárias, sejam elas individuais ou coletivas.
Por exemplo: quebrar a rotina, tirar um dia de folga, andar pelas ruas sem camisa, trajando apenas chinelo e bermuda, pode ser perigoso demais, despertar a atenção da polícia que faz a ronda, sempre disposta a realizar baculejos nos “elementos desocupados e suspeitos”.
Deitar-se sob a sombra de um ipê num parque público, como um autêntico (e feliz) vadio, é tão arriscado quanto colher flores no canteiro da praça. Gera medo, desconfiança, e ninguém compreende um comportamento assim tão... humano. Cada simples ato que fuja da correria e do caos urbano assusta.
Recentemente, transeuntes “preocupados com a preservação do patrimônio público” acionaram uma viatura policial para deter três pivetes que tomavam banho num “espelho d’água”. Toda indisfarçável alegria dos menores não se devia à fome ou ao efeito alucinógeno de solvente e cola de sapateiro. Foi só brincadeira de criança num dia quente de verão. Não eram ainda escravos do “crack”, esta praga que o poder público não dá conta de frear. Ou seja, além de injusta, a captura dos meninos foi mais um ultraje à poesia.





