A hora dos bárbaros
A hora das hordas começa quando a barbárie avança, a afogar a inocência, e a assassinar toda a esperança. Parece ser este mundo em que vivemos – um mundo selvagem e sem freios, alucinado e hostil à amorosidade presente na energia da vida. É a conclusão fatídica a que se pode chegar, quando vemos o crime organizado, dentro e fora dos presídios, a cometer assassinatos covardes de policiais, civis e militares, ordenando que se incendeiem ônibus lotados de pessoas inocentes.
Na escalada da barbárie e da guerra civil não declarada em que vivemos, ninguém é poupado ou está a salvo, nem mesmo as crianças ou cidadãos, que são atingidos, nas ruas, ou até mesmo em suas residências. Autoridades ligadas ao Direito, como Juízes, promotores ou diretores de unidades presidiárias estão na mira da bandidagem e de seu poder paralelo – desde que sejam duros, ou seja, cumpram o seu dever, aplicando as penalidades previstas em lei. No Rio de Janeiro, em onze dias, oito assassinatos covardes de policiais militares.
Sem falar nas vítimas das balas perdidas – dentre elas, crianças, mortas ou tornadas paraplégicas. As ações criminosas são reações da bandidagem à repressão e punição de seus crimes. Estimulados pela leniência das leis boazinhas, e a eterna tolerância das autoridades, interessadas apenas em ganhar eleições. Insurgem-se contra as tímidas iniciativas no sentido de endurecer as leis. As hordas agora são engrossadas pelo cortejo da barbárie, de drogados, a perambular pelas ruas, ou na violência a crescer nas escolas, campos, construções, nas cidades do medo, onde a inocência é afogada em sangue. Quando escolas são saqueadas por seus próprios estudantes (meninos de dez, doze anos) e quando salas de aula são palco de pornografia e estupros, é de se perguntar: que filhos estamos deixando para o mundo, e o que esperar deste, a se julgar pela qualidade dos filhos que estamos deixando?
No que encontram ressonância na atitude de empurrar com a barriga, de nosso intrépido guia genial dos povos, que não cansa de nos empulhar com a cansativa arenga de que há décadas não se investe na educação neste país, sendo ele o primeiro a dar o mau exemplo, dizendo que estudar é besteira, pois que ele não estudou, e deu certo. Isto quando não apela para acusar os que têm apartamentos de cobertura, como os responsáveis por existirem tantos menores e maiores, roubando e matando, pelos campos e cidades. Como se ele próprio não tivesse um – e como se o Lulinha-bom-de negócios, o Ronaldinho-faro fino, e excelente drible para negócios de oportunidade, não figurasse entre os novos milionários deste país das Bruzundangas – que, desde os tempos de Lima Barreto, até hoje não tomou jeito.
O fato nos faz lembrar o poema atribuído a Maiakóvski: “No primeiro dia, eles invadem nosso jardim, e destroem nossas flores. E não dizemos nada. No segundo dia, eles invadem nossa sala, e matam nosso cão. E não dizemos nada. E como não dissemos nada, arrancam nosso coração pela boca. E como não dissemos nada, já não podemos dizer nada”. O avanço da audácia e monstruosidade das hordas de bárbaros, nascidas do seio varonil de nosso amável e jeitoso povo brasileiro, parece indicar que estamos em face da banalidade do mal. Como nos trágicos tempos do Holocausto nazista. “E como não dissemos nada, já não podemos dizer nada”.















