A eternidade vai acabar
Houve um tempo que tudo me parecia eterno. Era um mundo parado, sem movimento, em que o verbo esgotar não entrava. Meu pai era um homem imenso, seus poderes não tinham limite. Era um tempo e um mundo muito confortáveis. Não tinha muita consciência de mim mesmo, quando acordava para a vida, e me parecia que os seres, como eu, teriam para sempre o mesmo formato e o mesmo tamanho congelado com que os via.
Depois vieram tempos mais modernos, em que a desconfiança passou a gerir os negócios dos homens. A desconfiança e a convicção de que um dia não haverá mais florestas, então os rios poderão estar secos; não haverá mais água potável, porque os aquíferos já foram poluídos ou também secaram. Tempos secos, serão aqueles. O Loyola, quando escreveu “Não Verás País Nenhum” estava profetizando, ele, que não é um profeta profissional, mas como diletante tem acertado muito, pois estamos bem perto das bolhas de calor que ele descobriu antes de todos nós. Alguém viu onde foi parar a gasolina? Só os mais velhos, conservados ainda como arquivos da memória humana, só eles ainda saberão o que era a gasolina. Vivemos em tempos de buracos negros, de camada de ozônio, de tsunames, el niño, e tantos outros tormentos com que a natureza nos ameaça. Nossos avós deitavam-se à noite e dormiam pensando em um mundo amigo, meio compadre da gente. Nossos avós. Porque os avós de uns outros por aí dormiam pensando em como transformar a natureza em lucro. E transformavam.
Passei outro dia pela rua Itatiaia e vi três mulheres conversando escoradas em rodos. Elas deveriam estar lavando as calçadas dos netos daqueles que transformavam a natureza em lucro. Pelo menos era o que me dizia o bico da mangueira, por onde um jorro da mais bela, da mais pura água do aquífero Guarani fazia um belo arco e se arrojava na calçada desmanchando-se em bolinhas de cristal. Elas, coitadas, cujos avós pensavam no compadrio do mundo, elas já assimilaram a essência do pensamento dos donos das calçadas.
Essas mulheres, na certa, ainda vivem sob o signo da abastança daqueles tempos em que tudo era eterno. Mas a eternidade vai acabar. As reservas de petróleo estão-se exaurindo, nossos estoques de verde, de florestas, já estão no vermelho. E a água potável, até quando ainda a teremos?





