A escrotidão
“Saia do meu caminho / Eu prefiro andar sozinho / Deixem que eu decida a minha vida / Não preciso que me digam / De que lado nasce o sol / Porque bate lá meu coração...” (Belchior)
João Mário é um bom menino. Filho de pais atletas, adora natação. Tem quinze anos de idade, o corpo de um homem de dezenove, e a cabeça de uma pessoa que eu queria voltar a ser. É... João Mário sabe mesmo como viver...
Acontece que o adolescente mudou-se de escola. Mudou-se na marra, porque concluiu o Ensino Fundamental (que eu conhecia como “primário” e “ginásio”) e a escola ensina só até o 9º Ano (que antes a gente chamava de “oitava série”). Agora no mês de agosto ele iniciou o segundo semestre do ano letivo sob ameaça de “tomar bomba”, “levar pau” em duas ou três matérias. João, na verdade, se sente muito fora do ninho.
De um ano para o outro, sem alerta e aviso prévio, foi promovido a adulto, mesmo com o recorrente raciocínio pueril permeando a sua mente. Claro, são pensamentos mesclados com alguma dose de picardia, bem próprio da avalanche hormonal promovida pelas gônadas adolescentes.
João está infeliz, e fala em abandonar a nova escola. Não deu liga. Não “enturmou”. Na verdade, quando está lá dentro sente até mesmo que o oxigênio lhe falta nos pulmões. João sente saudades do pátio enorme da escola anterior, das quadras de esporte, do ginásio coberto, da cantina, das sombras das árvores e do barulho insano que a molecada fazia no recreio, correndo pra lá e pra cá como se fossem felizes.
João, agora, frequenta uma sala moderna, climatizada, com outras dezenas de meninos e meninas, todos com muitas acnes, espinhas e dilemas espinhosos. Os jovens têm sido incitados a agirem como adultos de uma vez por todas. De acordo com o diretor da escola e os professores, a “grande corrida” já começou. Demanda-se pensar seriamente no futuro. Carece deixar o passado aos fracos e investir, o quanto antes, nas carreiras de médico, engenheiro, dentista, jornalista, etc. João e seus colegas são amadurecidos à força pelos docentes, que nem fruta verde guardada na fornalha.
As palavras de ordem proferidas pelos professores são: competência, dedicação, sacrifício, renúncia, resultado e vitória (afinal). Mas João ainda não quer vencer na vida (a não ser as competições de 100 metros livres ou 200 nado de costas... João é um monstro dentro de uma piscina...).
Aliás, o fato de insistirem que seus colegas de sala são, no fundo, no fundo, concorrentes deixa o João confuso. Ele não quer competir com seus amigos, só com o cronômetro. Queria conversar mais com eles, passear, curtir as infinitas festinhas das debutantes da sua geração, e jogar futebol na hora do recreio (mesmo sendo desastrado com a bola nos pés). Mas a escola não tem uma quadra poliesportiva. Só alambrado. Um prédio moderno edificado com paredes texturizadas e monitorado com câmeras de segurança e bedéis enxeridos. João se sente prisioneiro. Embora não tenha asas, ele já pensou sair voando dali várias vezes. Será que você está enlouquecendo, João?!
Os pais ficaram preocupados com o baixo desempenho do rapaz que, até então, sempre mantivera uma boa média nos boletins. Foram conversar com o diretor da escola e com a coordenadora, mulher estudada, competente, arvorada em sei lá quantos “MBA” da vida. Foram se inteirar da situação, tomar pé da coisa, buscar respostas para o surpreendente dilema do filho.
Saíram de lá piores do que entraram. Ouviram coisas curiosas a respeito de João. Que ele era assim meio avoado, distraído, e que ficava com o olhar perdido na paisagem da janela. Enfim, talvez ele estivesse meio adoentado, acometido com o tal “déficit de atenção”, doença neurológica das mais comuns nos nossos dias, nada que um bom médico e os potentes psicotrópicos não resolvessem, com certeza. E João precisava estudar mais, concentrar-se mais nas atividades, ser mais participativo na sala de aula, entrar no jogo, cair na real, compreender que não é mais uma criança e, sim, um homem formado (olha só pro tamanho deste menino!).
Os pais argumentaram que João andava melancólico. Queixava-se que não tinha mais tempo para ler livros, hábito que ele desenvolvera desde que fora apresentado às letras do alfabeto quando ainda usava fraldas. Sentia-se meio fraco e sem energia porque diminuíra as atividades esportivas por causa da carga massiva de tarefas e pesquisas escolares. Gostava de nadar dois mil metros todos os dias. Agora, tinha que se contentar com as braçadas apenas aos finais de semana. Com aquela estória de aulas e provas todos os sábados, João não se conformava de jeito nenhum.
O diretor e a coordenadora foram polidos, porém, enérgicos: ou João Mário se adequava à escola ou teria que mudar-se dela. Afinal, os senhores certamente entendem que não se pode mudar todo um sistema, toda uma programação, por causa de uma minoria. Taí a concorrência, pra quem quiser ver. Sem sacrifício não haverá resultado. Se João pretende ser um adulto bem sucedido neste mundo globalizado, precisa encarar os estudos de outra forma. A vida á assim mesmo, minha gente. Não é que nem na minha época ou na época dos senhores. Sinto muito. Os tempos mudaram...
Mas, será que João Mário vai conseguir mudar?!





