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POR EM 03/08/2010 ÀS 10:13 AM

A casa em reformas

publicado em

O sofrimento que nos traz a construção ou reforma de uma casa, haja vista quanta gente sofrida e calejada no assunto. Os pedreiros de hoje, os tidos e havidos como bons, eles “se acham”, nós é que não os achamos facilmente, quando precisamos deles. E custam os olhos da cara. Pensam que o pobre dono da casa — quando é o caso de um pobre — está montado no dinheiro, daí enfiam a faca, sem piedade. A mão-de-obra, por vezes, é exorbitante, e não que desvalorizemos o pesado trabalho deles, mas por conta do exagero no valor que nos cobram, sem falar no que ainda gastamos com materiais de construção.

Por certo que um pouco nos reformamos com a casa, como um reflexo dela, por sua vez refletida em nós. Um no outro espelhados. É bom de se ouvir quando alguém diz que a casa está “um brinco”, ou que as panelas brilham como espelho. Imagine-se o sorriso do alumínio. E confira-se a felicidade então estampada no rosto luminoso da dona de casa. Sim, bem pode que a felicidade, de forma simples, habite uma casa com os seus brincos. A casa se ilumina, bem assim o rosto de sua dona.

Coloquei toda a minha aposentadoria numa reforma geral — de há muito adiada por falta de recursos — e algumas ampliações em minha casa. Minha abnegada Maria no comando de tudo e até dando uma de arquiteta — tem o seu tino, a menina! —, e o dinheiro ó, e o dinheiro ó, e o dinheiro ó, só voando feito passarinho, coitado de mim, que me acoito nas entrelinhas e só entendo de letras, as literárias, e não letras de câmbio.

Tivemos pedreiros que fizeram serviço malfeito e que teve de ser refeito por outros que contratamos — e ainda há coisas malfeitas, de sobra. Um deles, mexendo com o telhado sobre o quarto de minhas netas, caiu sobre o forro de madeira e quebrou tudo — ainda bem que ele não se quebrou em nada —, daí foram embora sem repor o telhado e reparar o forro. Veio a noite e com ela uma tromba d´água de lascar, que alagou a casinha de minha filha, nos fundos da casa, e as netas tiveram que dormir no quarto dos avós.

Faltos de profissionalismo e caráter, os caras abandonaram a obra, sumiram. Tinha servente que fedia a cachaça e matava serviço. Ficamos no prejuízo. Talvez, também, por falta de maior cautela nossa. Contrato de serviço sem garantias, sequer o endereço dos sujeitos, apenas com alguma referência e assim na base de temerária confiança, de quem confia desconfiando, com medo, como se já pressentindo, mas correndo o risco, pagando para ver. Contato por celular, que, tendo abandonado a obra, deixaram de atender durante quatorze dias. Aprenda-se a lição. Na dúvida, não contrate, e até agimos assim, em alguns casos. E como advinhar, só pela cara, o caráter das pessoas? É o mesmo que votar num candidato e, após eleito, ele se revelar um crápula e nos roubar, descarada e cinicamente. Já os pedreiros em foco seriam um caso de polícia, mas achamos melhor deixar pra lá, até pela miserabilidade social deles. “Meu mal é o meu bom coração”, como já publiquei num poema de minha lavra.

Somando os prejuízos, cogitei contratar equipe de alguma empresa prestacional, certamente com mais garantia, mas então ponderamos, Maria e eu, que isso custaria muito mais. A custo, conseguimos que um pedreiro conhecido viesse das grandes construções, onde ele, competente, é prisioneiro dos engenheiros e só nos atende em dias de alguma folga, pelos quais se tem que esperar até por meses seguidos. Com ele, a reforma da casa ganhou outro ritmo e já ia por quase terminar-se, mas aí, em junho deste ano, o nosso bom pedreiro sofreu acidente automobilístico e ainda está impossibilitado para o trabalho.

Vieram, em seguida, os colocadores de gesso, outros assentadores de cerâmica e os pintores, profissionais confiáveis, também pedreiros, mas meio que refugando algum serviço de acabamento inacabado, com retalhos de cerâmica — servicinho chato mesmo, diga-se de passagem, realizado sob resmungos de impaciência. Enfim, meio que terminaram esse serviço e também se foram. Para se ter uma idéia da pendenga toda, agora em julho completou-se um ano que iniciamos as benditas reformas na casa.

Ainda há coisas por se fazerem e refazerem. O pintor prometeu-nos arranjar e não está conseguindo um pedreiro que se interesse por só rebocar uma lateral da casa, nos fundos, inclusive acabar de rebocar a torre da caixa d´água. A casa ficou com esta banda inacabada, ferindo a estética. Tínhamos alugado andaime de ferro e os caras haviam começado o serviço, mas aí sumiram e deixaram pelas metades. Nem lhe conto mais. Pelo que outros me contam de seus próprios sofrimentos com reforma de casa, cala-se quando não há mais o que falar, já dizia o filósofo Ludwig Wittgenstein.

Só para ilustrar a conclusão, anos atrás meu pai foi construtor e ajudou muito a erguer prédios em Goiânia. Na época, eu morava com uma tia em Minas Gerais, daí vim para Goiânia e, por um tempo, atuei como servente de pedreiro para meu pai, numa reforma em frente ao antigo Mercado Municipal, hoje Edifício Parthenon Center. No ofício de servente, preparando massa e pegando peso sob o sol escaldante, pelo meio da tarde vinha-me dando uma fome danada, e eu, por acanhamento, não reclamava. O alívio que era  quando meu pai me chamava —  até que enfim! — para o café e o mané-pelado num bar do Mercado.

Mestre de obras, já meu pai muito reclamava “dessa classe de pedreiros e serventes vagabundos”, expressão dele, que, ao término duma outra obra, juntou suas ferramentas de trabalho, jurando nunca mais pegá-las, em seguida jogou num canto de parede o seu velho chapéu e um trapo de camisa. Foi engraçado e ao mesmo tempo triste, vê-lo dar tchau a elas, com a mão calejada e uma voz entre melancólica e resignada com os ossos do ofício, assim de quem se despede num fim de tarde. Mas ele ainda tentou, movido pela carência financeira, retomar  a marreta, a trena, o prumo e a colher de pedreiro, daí abandonou tudo de uma vez por todas.

Há pedreiros e “pedreiros”, estes que, como se diz, são “pedreiras”, ou “durezas”, dificultosos, problemáticos. Os dedos das mãos não são iguais, e o que se tem de pedreiro ruim e sem caráter, muita gente já sabe. Salvam-se os bons que se contam a dedos de uma só mão. A mais das vezes, contratar pedreiro é sempre um risco que se corre e nos deixa apreensivos. Contratamos um que, enquanto trabalhava, e sem notar que ouvíamos, ficava xingando o serviço: “Desgraça! Essa desgraça! Ô serviço desgraçado!” Deve ser por isso que cobram tão caro pelo serviço,  ou pela desgraça. E  o coração mole da gente ainda se compadece deles. Pagando e sentindo dó. “Humanos, demasiado humanos”, diria Nietzsche.

A melhor construção, com reforma ou sem reforma, ortográfica que seja, ainda é aquela do Chico Buarque, tijolo por tijolo, perfeita simetria, de cima para baixo e vice-versa, num movimento de operário que sobe e desce no edifício. “Construção”. A arte do trágico. A trágica poética do cotidiano. O operário que despenca de um desenho lógico, ao mesmo tempo em que se constrói e desconstroi de um desenho mágico, e, com a música de trágica poesia, numa queda traumática, atravanca o passeio público, atrapalhando o tráfego. 

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Comentários (8)

  • e bem isso mesmo, estou passando agora

    11 meses atrás por andreia
  • Parabéns, este texto retrata em poucas palavras o sofrimento de nós proprietario que por varios motivos temos o objetivo de fazer uma reforma no nosso querido lar aonde posteriormente acaba virando uma reforma na familia, na alma e em tudo, pois somos leigos nessa aréa e acabamos virando vitimas de profissionais muitas raras vezes excelente e constantemente um desastre e temos que aprender a duras penas como nos doi no bolso e na alma a falta de experiência. Quem faz uma reforma pensa muito antes de fazer outra pois os trausmas são perpetuos, mais a alegria que nos proporciona são eternos.

    1 ano atrás por Andréa
  • Mestre Carlos Augusto Silva! Andei atribulado por uns dias, e só agora, a 1h15 desta madrugada de quarta (11/8), acesso a Bula e me deparo com suas palavras. Muito grato pelo seu comentário e pela presença que, toda vez, alenta-me em meus esforços e aprendizagem. Abraço, mestre. E poderia passar-me seu e-mail, por meio do amigo Carlos Willian? Fico no aguardo.

    1 ano atrás por Braz
  • O Braz sempre surpreende, e sempre surpreende da forma mais positiva. Vai do mais simples ao mais rebuscado com uma destreza de operário perito da palavra. Figuraça, Braz. Abraço.

    2 anos atrás por Carlos Augusto Silva
  • Braz, gostei do seu texto. Também estamos sofrendo por aqui com drama parecido. Gostei da partezinha sobre seu pai. Abraços.

    2 anos atrás por Tainá
  • Gostei. Passei por isso recentemente.

    2 anos atrás por Fernando
  • Braz só você mesmo pra retratar o martírio de uma reforma. Adorei o texto sempre brilhante.

    2 anos atrás por Cris
  • Braz, só passando por essa experiência para retratar com tamanha fidelidade o drama que é tal reforma de casa, e pior ainda o sofrimento de lidar com os ditos "profissionais" dessa área. Brilhante artigo. Você como sempre dá um show com as letras...

    2 anos atrás por Celina Sousa


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