A câmera pós-futurista
Estava eu totalmente absorvido e até um pouco fatigado no ofício de edição do meu mais recente trabalho. Mas também pudera. É um copião medonho. São mais de cem horas de filmagens, sem rumo, sem objetivo, sem unidade. E minha árdua tarefa é dar sentido aquele mundo caótico. Transformar o emaranhado de áudio e vídeo num produto, em algo permeável ao senso de apreciação dos consumidores de documentários.
Foi então que o interfone tocou. Antes só queria contar que meu pequeno apartamento foi totalmente transformado num estúdio. Acho que foi também por isso que minha mulher me abandonou. Ela achou que não havia mais espaço para ela no apartamento; nem em meu coração. Aí ela fugiu com o amolador de facas.
Como dizia, o interfone tocou. Apertei o stop da ilha de edição. Ia despachar sumariamente quem quer que fosse. Escutei do outro lado da linha: Aqui é o Borovski. Da parte do Dr. Almeida Garrett, para lhe apresentar uma novidade.
Eu não podia deixar de atender, o Almeidinha é o cara que produz e negocia meus documentários. Ele me explora, eu sei. Mas sejamos francos: ele me sustenta quando as vacas estão anoréxicas. Ainda que chateado, apertei a tecla que libera o portão e autorizei o camarada subir.
Imediatamente chegou um magricela anexo à mala, com um sorriso lorpa de trambiqueiro. Eu lhe falei, o que você traz aí, camarada? Ele quis antes se apresentar: era um judeu russo, que trabalhava com as últimas novidades da tecnologia israelense.
Abriu a mala, enquanto dava uma olhada panorâmica pela sala atulhada. Retirou uma caixa, de dentro dela um engradado de isopor e, do miolo, uma geringonça que supus ser uma filmadora. Me falou que aquela era a última joia dos pesquisadores judeus. Me garantiu que com aquela eu iria fazer documentários impensáveis até então. Indaguei o que ela tinha de especial. Pra começar, parecia coisa dos anos 70; pesadona.
Me explicou que aquela filmadora substituía todo o meu estúdio. Tudo que eu precisava estava ali. Já me agradou. Se eu arrumasse mulher nova talvez ela não fosse embora, pelo menos em razão do entulhamento. Mas só fazer sozinha o que seu estúdio faz para os judeus é pouco. Seria coisa de japonês: diminui, mas não inova. Essa máquina tem duas funçõezinhas mágicas. Com esta aqui, disse apontado o dedo, o senhor pode filmar flagrantes de fatos já ocorridos. Mas como? eu quis saber. O senhor chega num local que aconteceu um desastre, por exemplo, aponta a filmadora para o cenário do evento e aciona esta função. Ela tem um dispositivo que reconstitui as imagens de toda a cena, através dos resíduos de ectoplasma que pairam no ar.
– Só isso que ela faz ? – eu disse ironizando.
– Claro que não! – me falou. Esta outra função aqui faz o trabalho inverso...
– ...filma a cena que vai acontecer, através dos ectoplasmas mobilizados para configurar o evento! – completei.
– É exatamente isso, falou empolgado.
– Cai fora daqui, seu picareta! – berrei. Ele mal teve tempo de juntar a tralha.
Na outra semana o Almeidinha me liga de Portugal:
– Ó, cara, você jogou o nosso trunfo na mão da concorrência?!






