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POR EM 15/09/2008 ÀS 05:58 PM

A baixa sociedade

publicado em


Sempre achei que a imprensa falada, escrita, televisada e fuxicada comete solerte e insidioso crime contra as classes ditas menos bafejadas pela sorte, que vem de ser  as tais "classes populares", que o bico de tucano dos políticos populistas beija e balança, cínica e varonilmente, sempre que "vespram" as eleições. Os tais veículos nunca se dão à pachorra de conceder espaço à baixa sociedade, em coluna especializada. Por que a discriminação? Pobre também não faz festa de aniversário? Filha de Pedro pedreiro também não pode fazer debut? Pobre também bebe e come à larga, mesmo em tempos bicudos, ainda que seu passadio seja à base de abóbora de porco, quiabo e chuchu - tudo arrematado a preço de limpar banca, pois com a fome e a canícula não há banqueiro que agüente o tranco. 

Diferente da escumalha do poviléu, ou do zé-povinho propriamente dito, os da alta estão sempre em alta. Os tais que nasceram com o fiofó para a lua adornam o frontispício de suas donzelas casadoiras com tiaras de caríssimos diamantes. Não contentes, fazem que suas nubentes habitem mansões hollywoodianas, dotadas de zoo, heliporto, e salas de chá, de café e de chocolate. Pensando na injustiça histórica, cometida contra os lumpens periféricos, pensei que a Nega Brechó, símbolo da mulher torcedora do glorioso Vila Nova Futebol Clube - - tigrão temido -, bem que poderia ser a colunista da baixa sociedade. Ela possui todos os requisitos para ser a intérprete e o espelho fiel da movimentação social da vasta grei dos excluídos, nesta terra de bois, reitores e políticos, que tem na pecuária de Nova Vila a mais prestigiada e a mais famosa de suas festas. É de se estranhar que ninguém tenha se lembrado de convidar Nega Brechó para assumir o encargo.

Em tempos primevos os "repórteres sociais" das colunas da alta roda tinham as viagens ao hoje conflagrado balneário do Rio de Janeiro como suas notícias mais podres de chique. Quem viajava com a família para algum balneário do litoral de "Sum Paulo" era tida como gente de fino trato, podre de rica e da altíssima roda. Já as famílias apenas remediadas, a caminho de serem novos ricos, ou riquinhos emergentes, contentavam-se com notinhas intituladas de "drops", informando que fariam uma viagem para a "Manchester goiana", que vem de ser Anápolis. 

Hoje rico noticia, sem jactância ou alarde, que vai a Miami, "névi iorque", cruzeiros pela "Oropa, França e Bahia", tours pelas ilhas gregas, e outras lordezas de igual ou maior quilate. Ao invés de noticiar façanhas econômicas deste naipe, a coluna da baixa sociedade daria, em primeira mão, furos provenientes de atléticos "esforços de reportagem": O descuidista mão de vaca juntou os panos a macacada e foi tentar a sorte no Bairro Tiradentes V, onde otários e incautos ainda deixam sabão no coaradouro e seus baixeiros (leia-se: roupas)  no varal. Tudo para dar sopa e mamão com açúcar a malandro tala-larga´, eu ninguém é de ferro e, de mamando a caducando, os novos e os antigos excluídos também querem, ainda que na base da mão grande, fazer parte do refinado rol dos incluídos. "Incluídos, venceremos!", é o lema desta gentinha chinfrin.  

Logo abaixo de foto estampando a descabelada e abibolada Maria Louca, socialata da periferia periférica do cinturão de miséria da city, teúda e manteúda de Ze Prequeté, pedreiro meia colher, que tira bicho do pé, pra comer com café. Maria Louca pirou, abibolou de vez: para festejar seu sexagésino nono natalício mandou sacrificar, em holocausto, o  velho galo Biriteiro, bom de garganta e campeão na espora; Por ser mais velho que a aniversariante o galo só serviu para caldo, manjar dos deuses, para amansar veneno de cachaça. Um regabofe à base de abóbora de porco,  maxixe, chuchu, Maria Isabel (arroz de puta pobre) macarrão com carne e farinha à vontade sacudiu os alicerces da barraca do Zé Capeta. Um forrobodó de levantar poeira agitou, a noite inteira, a zona do agrião.

Nunca se viu, em toda a região do Buraco da Bronca, tamanha fartura em matéria de buchada de bode - o prato de resistência do regabofe que, à guisa de sobremesa, serviu latadas de doce de leite com pau de mamã, canjicada e pé de moleque. Dúzias e grosas da generosa Chora Rita. Para os enólogos presentes foram servidos carotes do legítimo sangue de boi, da pior e mais desacreditada safra - sem falar que a velha cidra natalina fez as vezes do champanhe francês. 

Tão opíparo banquete popularesco foi preparado pelo chef da goianidade, Orozimbo Patureba, especialista em rabada & cia. para matar a fome gargantuesca e pantagruélica do povo. Tudo de molde a fazer neguinho dispensar o hábito de comer camaleão e arrotar camarão. Tudo feito com rigorosa inspeção de controle de qualidade de Ritinha Peidorreira, cozinheira-chefe do restaurant Come Em Pé, glória lendária da culinária nordestinada ( à base de macaxeira, bucho de bode, baciada de macarrão, feijão e farinha a vontade). Não canso de repetir à saciedade: que papel feio, o desta imprensa, que nunca abriu espaço para a gentinha miúda da baixa sociedade.   

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