A alma das ruas
As ruas são seres vivos, escreveu o cronista e flaneur João do Rio: “Oh! Sim, as ruas têm alma! Há ruas honestas, ruas ambíguas, ruas sinistras, ruas nobres, delicadas, trágicas, depravadas, puras, infames, ruas sem história, ruas tão velhas que bastam para contar a evolução de uma cidade inteira, ruas guerreiras, revoltosas, medrosas, spleenéticas, snobs, ruas aristocráticas, ruas covardes, ruas amorosas, ruas covardes, que ficam sem pingo de sangue... vede a rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras à mais leve sombra de perigo. Esse beco, inferno da posse, da vaidade, da inveja, tem a especialidade da bravata”. As ruas pensam, têm ideias, preconceitos, filosofia, religião. Há ruas inteiramente católicas, ruas protestantes, ruas livre-pensadoras, e até ruas ateias, despudoradas materialistas, completamente despidas de qualquer ranço de religiosidade. “Qual de vós já passou a noite em claro, ouvindo o segredo de cada rua”?
Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, os vícios e as ideias de cada bairro? A alma da rua só é inteiramente sensível a horas tardias; há trechos em que a gente passa como se fosse empurrada, perseguida, corrida – são ruas em que os passos reboam, repercutem, parecem crescer, clamam e, em breve, são outros passos em nosso encalço. Outras se envolvem no mistério logo que as sombras descem sobre o Paço. Oh! Sim, as ruas têm alma. Vede a rua do Ouvidor. É a fanfarronada em pessoa, exagerando, mentindo, tomando parte em tudo, mas desertando, correndo os taipais das montras à mais leve sombra de perigo. Esse beco, inferno de pose, de vaidade, tem a especialidade da bravata”, revela o autor de “A alma Encantadora das ruas”.
Se é verdade que as ruas têm alma, coração e sentimentos, como as pessoas, e os demais animais, isentos da crueldade, (que é vício e traço dominante do bicho homem), as vias públicas também gozam, reprimem e são reprimidas e, quando ninguém observa, também gozam e excretam. As vias públicas têm seus momentos de anarquia e civismo, de coragem e covardia, de aberta prostibulência, ou disfarçado dandysmo. As ruas têm boa ou má fama, conforme o poder aquisitivo (ou de mando) que têm seus moradores. Ruas há que vão de retro, toda vez que veem o satanás; mas a maioria das ruas (centrais, ou as suburbanas metidas a besta), convidam o “coisa-ruim” para uma esbórnia em regra, onde tudo é permitido, até convidar a humanidade para o enterro de Deus.
Há as ruas de má fama, em que as madames deslumbradas e as mocinhas casadoiras trafegam fazendo muxoxo, ou fechando os olhos, para não serem contaminadas pelas doenças venéreas (que também podem ser aéreas): como vingança, as mulheres das “casas de luz vermelha” esgoelam, quase peladas: “nem te ligo, moça dadeira!”. Mas há também as largas avenidas cívicas, administrativas e bancárias, onde se fazem paradas (para nada); ruas em que militares e estudantes desfilam, demonstrando o seu garbo inútil e belo de “público externo”, de “eleitorado em geral”, e massa de manobra dos políticos profissionais.
Existem, sobretudo, as vielas do mal, e do medo, os becos dos desesperados, e dos demais aflitos, onde se faz um sexo apressado, e onde se compra droga a “preço de banana”, com o olhar postado na guarda municipal, que sempre é subornada para fingir que não vê o que é feito desde o sermão da montanha. No “curral das éguas”, lugar mal falado, onde eu, e os adolescentes de meus cinzentos tempos adolescentes conhecemos os primeiros alumbramentos, os coronéis mandavam no pedaço.
Tratavam suas mulheres com a mesma rédea curta com que tratam suas éguas e cavalos. Na ZBM da Campininha das Flores, a “zona do agrião”, onde se ia trocar o óleo, o que valia era a lei do trabuco. Maria Tomba Homem derrubava batalhões de garanhões, desafiando, em campo aberto, o poder fudectício de Joana Batalhão, a fodona dentre os puteiros da região. De um modo geral, as putas da ZBM Campineira – como de resto todas as putas terceiro-mundistas desta e de outras repúblicas bananeiras, são feias, desdentadas, grossas e mal-educadas. Afinal, para que um puta tem que ter nível superior, ser versada em Saussure, tirar de letra os lingüistas russos, e os estruturalistas pós - tudo? “Quem quer uma puta delicada?”, indagou Henry Miller, um catedrático na matéria: “Claude chegava a pedir que você virasse o rosto quando ela se agachava sobre o bidê. Tudo errado? Um homem quando ardendo de paixão, quer ver coisas, quer ver tudo, até mesmo elas verterem água”.





