O que faz diferença
O óbvio: cultura faz a diferença e é o que distingue povos de todas as épocas em todos os tempos. Mesmo não conhecendo a Itália, sabemos do Renascimento; difícil se lembrar quem governava a Inglaterra quando Shakespeare escreveu "Romeu e Julieta", mas a Inglaterra está para sempre associada ao nome do gênio, assim como nos lembramos de Portugal ao falarmos de Fernando Pessoa ou nos remetemos à Espanha diante de uma obra de Salvador Dali — a cultura engendra a identidade de qualquer povo, óbvio. No âmbito nacional, por exemplo, a Semana de Arte Moderna de 1922 é paulista; a Bossa Nova é carioca; o barroco brasileiro é mineiro, etc... Isso se aprende com mestres.
Agora, maduro, ando querendo devolver e retribuir espalhando as coisas que fui aprendendo pelo mundo afora com outras pessoas que sabiam mais que eu, que se interessaram por mim e me impulsionaram para frente.
Era um menino tolo e jeca quando fui lançado no Rio de Janeiro para estudar e anos depois pude avaliar a importância que algumas pessoas mais velhas que eu, ou colegas de colégio e faculdade, atores parceiros nos grupos de teatro, tiveram na minha vida.
Generosos, perceberam a enorme curiosidade que tinha de aprender e foram me orientando sobre o que ler, o que ouvir, permitindo que fizesse minhas escolhas a respeito de quase tudo. A curiosidade pelas coisas do mundo não diminuiu ainda hoje, não diminui nunca, só aumenta porque nunca se sabe o suficiente para deixar de se surpreender a cada manhã. Acreditamos que só as pessoas mais maduras, vividas, têm algo a ensinar e, assim, perdemos a chance de aprender com gente jovem que, mesmo não tendo vivência, tem uma maneira especial de observar o mundo, um ângulo ainda não viciado de perceber o que alguns velhos já não percebem. Portanto, melhor é se entregar aos mestres, todo tipo de mestre, novo ou vivido, e desfrutar os prazeres das descobertas que, nem de longe, se revelam de uma vez só — aprender é viver a vida em conta-gotas. As gotas podem ser uma boa conversa entre amigos, a leitura de um livro de um grande autor, a visão nova sobre a natureza humana que um filme nos sugere, as notas musicais que uma sinfonia insuspeitada nos revela, e por aí vai... Ensinam os mestres orientais que o aprendizado não é um diálogo entre um professor e um aluno, é uma espécie de diálogo entre dois amantes. Amigos podem ser amantes, um escritor e seu leitor são amantes, ouvir uma sinfonia de Beethoven o torna amante do compositor dela — só sendo amantes o que está acima, o além, pode ser expresso.
O que aprende deve estar sempre numa receptividade feminina como a de um útero para que qualquer coisa que seja recebido nele não seja apenas agregada como conhecimento morto, mas cresça. Ensinam também que há dois tipos de linguagem: a lógica e a amorosa. A linguagem lógica é egocêntrica porque pressupõe que eu estou certo e o outro errado e eu não estou interessado em você, mas em mim, em provar que eu sei e você não. Com esses não se aprende nada.
A linguagem amorosa, aquela que nos faz aprender e nos transforma, nos faz interessados no outro, em ajudá-lo a crescer, não é egocêntrica, é viva e bem-vinda.
Penso que é a melhor maneira de passar adiante o que vamos aprendendo pela vida afora, fazendo evoluir os que nos cercam e sendo evoluídos pelos que sabem e querem transmitir amorosamente o que sabem. Vivendo assim faríamos jus à nossa humanidade e mais, faríamos o mundo bem melhor, mesmo com todas as suas mazelas e desencontros. Penso nisso e sinto cada vez mais claramente que o que cada um sabe não lhe pertence, mas a todos e reter conhecimento é uma doença do ego como tantas outras porque conhecimento agregado que não circula é conhecimento morto.
Retribua por aí o que o mundo lhe ensinou e estará contribuindo para a evolução e transformação da sociedade em que vive.
E com vantagem e a garantia do que ensinou João Guimarães Rosa: “Mestre não é quem ensina, mas quem, de repente, aprende”.















